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EDUCAÇÃO SOMÁTICA, ESTRESSE E AUTOREGULAÇÃO

 

Na roda-viva do cotidiano


A autoregulação é a capacidade que todo organismo vivo tem de auto-equilibrar-se, adaptando-se às diferentes condições do meio. É a capacidade de autoregulação que garante a satisfação das necessidades vitais dos seres vivos. Visto que todo organismo vivo está em um constante processo de adaptação para manter-se, o sistema de autoregulação está em constante funcionamento.

No caso dos seres humanos, uma das facetas do sistema de autoregulação é o conjunto de movimentos corporais involuntários que permite ao organismo de “recarregar as baterias”. O sistema de autoregulação pode ser visto em funcionamento quando uma pessoa se “espreguiça” de maneira espontânea ou quando boceja, permitindo o diafragma de relaxar.

Em alguns casos, o “sonhar acordado” também faz parte de mecanismos de autoregulação mais sutis, onde a pessoa dirige sua atenção ao seu mundo interior, abstraindo-se momentaneamente dos estímulos exteriores.

Para cada indivíduo, o sistema de autoregulação se manifesta de uma maneira diferente. Porém, em geral, o bom funcionamento do sistema de autoregulação se caracteriza pelas sensações naturais de prazer, satisfação, fluidez, equilíbrio, etc.

Tomemos como exemplo a secretária de uma grande empresa. Habituada a trabalhar sobre pressão, ela é incapaz de recusar o excesso de tarefas imposto pelo patrão. Sobre sua mesa, acumulam-se pilhas de documentos atrasados. Para ganhar tempo, a secretária continua a trabalhar durante sua hora de almoço.

Come um sanduíche enquanto digita uma carta no computador; bebe seu suco enquanto examina a contabilidade da empresa. Depois do expediente, a secretária vai para casa, abatida.

Dentro do metrô, ela diz a ela mesma que “amanhã” se inscreverá naquele curso de yoga que ela sempre quis fazer. Mas, “amanhã”, ela repetirá a mesma frase a si mesma sem nunca ter tempo para fazer nem sequer uma caminhada.

Chega em casa, come, vê um filme na televisão e dorme. No dia seguinte tudo recomeça. As semanas, os meses e os anos se passam sem que a secretária se permita ter um momento para “recarregar as baterias”.

Casos como esses são cada vez mais comuns. Os comportamentos repetitivos, o excesso de trabalho, o rítmo desenfreado dos grandes centros urbanos, as atividades mecânicas do cotidiano, a competição do mercado de trabalho e o pouco tempo que dedicamos a nós mesmos são fatores que contribuem à emergência de um estado bem conhecido de todos: o estresse.

O que a maioria de nós desconhece é o impacto real que o estresse tem sobre a saúde. Estudos clínicos recentes sugerem que 50% a 75% das consultas ao médico são motivadas em primeiro lugar pelo estado de estresse do paciente. A mesma pesquisa revela que em termos de mortalidade, o estresse é um fator de risco mais grave que a utilização do tabaco .

Como o caso da secretária sugere à primeira vista, talvez não se possa escapar do estresse. Porém, é possível admnistrá-lo, permitindo nosso organismo de se autoregular. O estresse mal admnistrado gera estados psicossomáticos de ansiedade, irritabilidade, tristeza e frustração.

Qualquer organismo vivo que é impedido de se autoregular não pode satisfazer suas necessidades de base. Pouco a pouco, o organismo torna-se disfuncional. Ou seja, no caso da secretária, de “estressada” ela passará a “estafada”, incapaz de realizar as funções mais simples.

Quem já viveu uma estafa sabe que o nível de esgotamento é tal que mesmo a tarefa mais simples – como preencher um formulário ou procurar um telefone nas páginas amarelas – torna-se extremamente custosa...

Educação Somática: reaprender a autoregular-se

Mesmo se o sistema de autoregulação é involuntário, ele pode ser ativado, ou seja, podemos colocar o sistema de autoregulação em funcionamento através de atividades específicas. Certos tipos de atividades induzem a pessoa a um estado de equilíbrio porque a levam a um repouso ativo onde o corpo e a mente tornam-se “um”.

Alguns exemplos de atividades de autoregulação são o tai-chi, o yoga, diferentes práticas artísticas, alguns tipos de esporte e os métodos de Educação Somática. Em todas essas atividades, o corpo está desperto porém relaxado e o estado mental é de total concentração.

A Educação Somática é um campo teórico e prático que se interessa pela consciência do corpo e seu movimento. Muito embora o campo exista há mais de um século na Europa e na América do Norte, a denominação “Educação Somática” foi criada em 1995 pelos membros do Regroupement pour l’Éducation Somatique (RES) em Montreal, no Canadá.

Nas aulas de Educação Somática, a atmosfera é de relaxamento. O papel do professor de Educação Somática é de levar o aluno a reapropriar-se de seu estado natural de equilíbrio, ensinando-o a recuperar o estado de bem-estar através dos movimentos de seu próprio corpo. Os exercícios de Educação Somática são simples, porém constituem-se de movimentos inabituais.

Coordenados ao rítmo da respiração do aluno, esses movimentos inabituais requerem do aluno uma atenção especial que tem um efeito regenerador: a diminuição do fluxo de pensamentos. Deixando de lado suas preocupações cotidianas durante o tempo da aula, a pessoa entra em um estado de tranquilidade onde ela pode retomar contato consigo mesma.

Com a prática regular dos exercícios de autoregulação propostos pela Educação Somática, a pessoa torna-se mais consciente dos limites e do potencial de seu corpo, transferindo para seu dia-a-dia as sensações de equilíbrio e fluidez vividos em aula. Gradualmente, a pessoa torna-se apta a admnistrar seu estresse e a enfrentar melhor os desafios do cotidiano sem compremeter sua saúde.

© Débora Bolsanello – maio 2006

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