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EDUCAÇÃO SOMÁTICA: O corpo enquanto experiência. (2)

 

A sensibilização da pele

De modo geral, nas sociedades urbanas, podemos constatar uma hiperutilização do sentido da visão: a quase supremacia da escritura e leitura como meios de fabricação e circulação do saber; a valorização da televisão, do cinema e do vídeo como cultura, lazer e informação; a indispensável utilização do computador, a estética dominante dos top-models e a febre de consumo de produtos vendidos através de suportes visuais (Internet, televisão, foto).

Embora a maioria de nós saiba que atualmente a informática oferece inúmeros programas que permitem a manipulação da imagem, a mídia atesta da veracidade da informação sobretudo através da imagem, possivelmente manipulada…O que dizer dos outros sentidos, face à « onisciência » da visão em nossa sociedade contemporânea?

Fronteira entre Eu e o Outro, a pele é o maior orgão do corpo humano, lugar por excelência da afetividade, do desejo, da intimidade e da identidade. De um ponto de vista fisiológico, os orgãos sensoriais estão vinculados ao tecido epitelial: o som atinge a pele da orelha e do aparatos mais sensíveis da orelha interna; o paladar é o contato de um alimento com a pele da língua.

O mesmo se dá com o olfato, cujos estímulos passam pela pele das narinas para serem codificados pelo sistema nervoso. Segundo Roquet (1991), o orgão pele sintetisa todas as funções dos outros sentidos. A pele pode captar, pela vibração, ondas sonoras e ondas luminosas. Ela tem um papel como regulador térmico e se aparenta ao sistema respiratório, pois respiramos também pela pele.

A estimulação cutânea ativa o sistema neurovegetativo e esse age sobre o sistema respiratório e visceral. Tal como o sistema nervoso, a pele origina-se da ectoderme, a camada de células mais externa do embrião. Através dos proprioceptores, a pele é sensível ao toque, que informa ao sistema nervoso sobre espessura, forma, profundidade, densidade, etc.

Muito embora a pele seja « um orgão determinante no desenvolvimento do comportamento humano », como afirma Montagu (1979), para a maioria das pessoas, a sensação do toque é restrita ao período da infância ou às relações íntimas. A visão sendo o sentido privilegiado no cotidiano dos habitantes dos grandes centros urbanos e o toque sendo a faculdade sensorial menos requisitada nesse contexto, o corpo humano passa a ser apreendido sobretudo por sua aparência.

Face à utilização excessiva que os indivíduos fazem da visão em nossa sociedade e dos problemas de saúde que isso pode ocasionar, a educação somática propõe exercícios que visam um reequilíbrio sensorial. O toque é a sensação mais primitiva do ser humano e é a primeira via senso-motora que os professores de educação somática abordam.

Os exercícios de educação somática propõem a sensibilização da pele como um meio de (re)ativação do sistema proprioceptivo. Sabemos que o sistema proprioceptivo tem receptores na pele, nos músculos, ligamentos, tendões e articulações que são responsáveis de informar o cerebelo das diferenças de pressão sobre o corpo e de sua orientação no espaço, informações absolutamente necessárias à sobrevivência do organismo e à manutenção da saúde.

O espelho não é utilizado nas aulas de educação somática e o professor de educação somática raramente demonstra os exercícios aos alunos. O referencial objetivo da imagem do corpo no espelho ou do corpo-modelo do professor cedem lugar à subjetividade do aluno, que aprende a tomar suas próprias sensações como referência do aprendizado.

Dentro do contexto pedagógico da educação somática, os acessórios (bolas de borracha e de espuma, bastoes e tijolos de madeira, saquinhos de areia, etc.) tornam-se referências de contato com a pele e instrumentos de auto-massagem, levando o aluno à (re)definir as fronteiras de seu corpo e a renovar sua relação com o mundo exterior. Montagu (1979, pg. 215) afirma que : « O despertar da consciência de si é em grande parte uma questão de experiência tátil. ».

De um ponto de vista psicológico, a sensibilização da pele proposta pela educação somática é uma estratégia pedagógica utilizada pelo educador para levar o aluno à (re)descobrir-se além de sua aparência.

Por exemplo, no caso de pessoas de personalidade introvertida com tendências anti-sociais e depressivas, a sensibilização da pele pode levá-los a uma relação mais sadia com o « mundo exterior » através de uma (re)descoberta da afetividade, da auto-estima, da sensualidade e da identidade, sem as quais a vida torna-se monótona e insípida.

No caso de alunos extremamente extrovertidos e que apresentam distúrbios de comportamento como a hiperatividade e a falta de concentração, a partir da sensibilização da pele, o professor pode levar esse tipo de aluno a gradualmente entrar em contato com o espaço interior do corpo (pulsações, musculos, órgaos, líquidos, etc). Assim, a atenção do aluno hiperativo é dirigida progressivamente para sua própria interioridade.

Através de vivências somáticas que começam pela estimulação tátil, os alunos aprendem de maneira gradual a conhecer-se, a respeitar as tendências de sua personalidade, a visitar outras facetas menos conhecidas de si mesmos e a desenvolverem habilidades pessoais que os levarão a estabelecer relações mais equilibradas com o meio.

A flexibilidade da percepção

Vimos anteriormente que as propostas da educação somática orientam o aluno a um refinamento de sua capacidade de sentir(-se). Por exemplo, um aluno poderá surpreender-se ao perceber pela primeira vez que sua « barriguinha », da qual ele tanto reclama, tem relação com a distribuiçao de suas tensões musculares e seus hábitos posturais.

O fato de sentir a « barriguinha » como parte de um « todo somático » pode levar esse aluno a trasnformar sua maneira de se perceber, por exemplo, dismistificando « seu defeito ».

Tomando consciência em primeiro lugar de como ele se sente e se percebe, esse aluno poderá, durante as aulas, abrir-se à experimentar sensações menos habituais, como por exemplo, o de relaxar tensões musculares crônicas e de reorganizar a dinâmica de sua postura. Vieira (1997, pg. 16) nos fornece uma pista de como a questão da percepção é abordada nas aulas de educação somática :

(…) caso nos movimentemos de uma forma diferente, as sensações cinestésicas nos parecerão estranhas e inadequadas. Por exemplo, se tenho o hábito de parar em pé mantendo uma forte contração dos músculos rotadores externos do quadril, a sensação que terei quando relaxar essa musculatura é que a articulação está em rotação interna e não em rotação neutra, pois em minha postura habitual, a percepção que tenho de rotação neutra é, na verdade, uma rotaçao externa. Assim, para mudar um hábito, é provável que tenhamos que vivenciar sensações que, muitas vezes, nos parecem estranhas (…)

Os exercícios propostos nas aulas de educação somática se baseam no pressuposto de que o corpo é indivisível e indissociável da consciência e que « somos simultaneamente seres individuais e interconectados ».

O aluno aprende na prática que suas sensações, percepções, emoções e faculdades intelectuais são estreitamente interligadas em relações dinâmicas. O objetivo é tornar mais flexível a percepção que a pessoa tem dela mesma e de suas interações no espaço físico e social onde vive, tal como afirma Greene : « O interior e o exterior constituem um todo dinâmico e o corpo humano é o locus onde acontece a sinergia entre o exterior e o interior. »

Quando dirigimos nossa atenção de maneira consciente, nossa percepção se transforma. Dois exemplos de exercícios ilustram essa proposta. No primeiro, o aluno esta deitado com os joelhos flexionados e os pés apoiados no chão.

O professor pede que o aluno pressione o solo com os dois pés e observe o impacto desse movimento em outras partes de seu corpo : seu quadril, tórax e cabeça. O professor não diz ao aluno para mover o quadril, o tórax e a cabeça pressionando os pés no chão. Ele formula a proposta de tal maneira que o aluno é levado a observar o circuito do movimento no seu próprio corpo, que parte da pressão dos pés no chão e percorre toda a coluna vertebral, passando pelos tornozelos, pelos joelhos, pelo quadril e tórax até mover a cabeça.

Dependendo da saúde articular e da capacidade de coordenação motora da pessoa, o aluno faz a vivência de que o que antes lhe pareciam segmentos (pés, tornozelos, joelhos, pernas, quadril, tórax, cabeça) podem revelar-se como um todo solidário quando nos movemos de maneira consciente.

O segundo exemplo é um exercício de rolar a cabeça sobre um tubo de papelão. O exercício é simples, mas as diretivas são complexas, com o objetivo de mudar a maneira automática habitual com a qual a pessoa executa os movimentos mais corriqueiros.

Ao invés de simplesmente dizer : « rolem a cabeça sobre o tubo », o professor canaliza a atenção do aluno para vários aspectos da ação de movimentar a cabeça, enfatizando a simultaneidade dessas ações.

O professor pede que a pessoa sinta o ponto de contato da parte da cabeça que está apoiada sobre o tubo e propõe que o movimento de rolar a cabeça sobre o tubo seja coordenado com o rítmo respiratório de cada um.

O aluno deve utilizar todo o período de expiração para mover a cabeça do centro para um dos lados e ao inspirar, deve mover a cabeça do lado de volta ao centro. A operação é repetida várias vezes e ao mesmo tempo que ela se desenrola, o professor continua a orientar a atenção do aluno, pedindo que ele sinta se o movimento das vértebras cervicais é de igual qualidade quando ele rola a cabeça para a direita e para a esquerda.

Mais adiante, o professor acrescenta a diretriz de observação do espaço interior do rosto, o volume da cabeça. Por fim, o professor convida o aluno a escutar o som que sua cabeça faz ao rolar sobre o tubo.

Nos dois exemplos citados acima, podemos constatar que o professor utiliza exercícios que propõem um jogo de percepção, onde a atenção do aluno é exercitada a focalizar-se ao mesmo tempo em várias facetas da ação. As modificações de percepção propostas nas aulas de educação somática resultam de exercícios que exigem do aluno a integração de faculdades motoras e cognitivas.

Essa estratégia pedagógica tem o objetivo de levar o aluno a conscientizar-se de que a percepção é uma faculdade tão dinâmica e flexível quanto a sensação. Percepção e sensação estão em perene processo de transformação.

O aluno compreenderá que a percepção que se tem do corpo depende sobretudo do ângulo que se adota para observá-lo, como afirma Capra (1996): « (…) o que denominamos árvore depende, como dizemos em ciência, de nossos métodos de observação. » (CAPRA, 1996, pag.36)

Através de exercicios que desafiam a atenção do aluno e onde seu corpo é levado a adotar posições inusitadas e um rítmo pouco familiar, a percepção que o aluno tem de si e do meio torna-se mais flexível.

O contexto das aulas de educação somática é um laboratório onde o aluno desenvolverá uma fina capacidade de adaptação as mais variadas situações. De acordo com sua personalidade e com as circunstâncias onde ele vive, esse aprendizado se refletirá sem dúvida em seu cotidiano.

Conclusão

Traçamos uma definição do campo da educação somática enfocando brevemente o contexto histórico e sócio-cultural onde seu conceito central de corpo equanto experiência emergeu. Vimos que, ao contrário dos valores veiculados pelos modelos « body builder », « corpo-objeto », « corpo-máquina », « corpo-cibernético », « corpo-biomédico », o corpo enquanto experiência traduz a indissociabilidade do corpo e da consciência.

A partir da mudança de paradigma do pós-Positivismo e do questionamento epistemológico inaugurado pela Fenomenologia, a experiência humana e a subjetividade deixam o status de « simples opinião » e passam a ser validadas como fonte de conhecimento.

Sob essa ótica filosofica, o professor de educação somática não se interessa somente pelo corpo da pessoa, mas principalmente por sua experiência através do corpo.

Nesse sentido, a educação somática propõe não um tratamento medical, fisioterápico ou psicológico, mas um processo de aprendizado.

Trata-se de um campo teórico-prático educacional que se interessa pelo movimento do corpo humano e que tem aplicações as mais variadas: a diminuição de sintomas antálgicos; a melhora da coordenação motora; a prevenção de problemas músculo-esqueléticos; a melhora da respiração; a melhora da flexibilidade muscular e da amplitude articular; o relaxamento de tensões excessivas e ativação de músculos pouco utilizados; a transformação de hábitos posturais inadequados e o desenvolvimento da capacidade de expressão.

Varela (2000) expõe uma reflexão que concerne o pressuposto central da educação somática:

Todos nós sabemos que podemos nos tornar conscientes, pois isso acontece a todo momento. De repente, você se torna consciente disto ou daquilo, seja a nível interno ou externo.

A questão é : o ato de tornar-se consciente pode ser cultivado como uma habilidade? A estruturação dessa habilidade essencial é, para mim, o foco de um estudo fundamental.

Segundo minha experiência como professora de educação somática, nosso objetivo através dos exercícios é o de cultivar a habilidade que o homem tem de se tornar consciente. Para tanto, o professor constrói suas aulas articulando continualmente três eixos : a sensibilização da pele, o aprendizado pela vivência e a flexibilidade da percepção.

O primeiro eixo consiste a levar o aluno a estar presente e a fazer-se disponível ao aprendizado; o segundo eixo é de direcionar a atenção do aluno a tomar consciência de suas reações motoras, hábitos posturais, compensações musculares, limites e potencial. O terceiro eixo é um convite ao aluno para entrar em um estado de exploração, tornando-se ele próprio a referência de seu aprendizado. (Figura 1).

Podemos concluir que o conceito central de corpo enquanto experiência deixa entrever que na medida em que nos aprofundamos na realidade corpórea de nossa existência, tocamos a capacidade inata que o ser humano tem de sentir e tornar-se consciente.

Podemos então reconhecer nossos limites, explorar nosso potencial, desenvolvê-lo e contribuir de modo positivo ao meio onde vivemos.

Débora Bolsanello 2005

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