Resumo
Elaboramos
aqui uma definição da educação somática,
campo ainda pouco conhecido no Brasil. Propomos uma breve reflexão
sobre as visões sócio-culturais do corpo na história
do ocidente a fim de apresentar o contexto onde emergiu o conceito
de corpo enquanto experiência, pilar da pedagogia da educação
somática.
A
educação somática é um campo teórico-prático
que se interessa pelas relações entre a motricidade
humana, a consciência e o aprendizado. A partir da mudança
de paradigma estabelecida pelo pós-Positivismo e do questionamento
epistemológico inaugurado pela Fenomenologia, a experiência
humana e a subjetividade passam a ser validadas como fonte de
conhecimento.
Para
os profissionais da área de educação somática,
não é o corpo da pessoa que é abordado, mas
a sua experiência através do corpo. Para tanto, o
professor de educação somática utiliza as
seguintes estratégias pedagógicas: a sensibilização
da pele, o aprendizado pela vivência e a flexibilidade da
percepção.
Introdução
Durante
toda a história do ocidente, o corpo humano foi e ainda
hoje é um assunto polêmico. Muitas são as
concepções que tentam definir o corpo humano, a
partir de valores sócio-culturais.
Dentre
os intelectuais do campo da filosofia, teologia, biologia, medicina,
neurologia, psicologia e antropologia não existe um consenso
sobre o que é o corpo humano, cada área defiindo-o
segundo seu modelo da realidade.
Nesse
artigo, desejamos elaborar uma definição do campo
da educação somática, campo teórico-prático
ainda pouco conhecido no Brasil. Tomaremos como referência
o conceito de corpo enquanto experiência, conceito central
da pedagogia empregada pelos professores de educação
somática.
Em
seguida, descorreremos sobre três aspectos de sua pedagogia:
o aprendizado pela vivência; a sensibilização
da pele e a flexibilidade da percepção.
Antes
de abordarmos o campo da educação somática,
propomos uma breve reflexão de como o corpo humano é
considerado na história do ocidente e pelas mentalidades
de nosso tempo.
Vieira
(1997) afirma que o corpo humano foi tratado como prisão
da alma, por Platão; como lugar do pecado, pelo pensamento
judaico-cristão e como entidade separada da mente, por
Descartes.
De
um ponto de vista antropológico, as concepções
de corporeidade constituem o eixo em torno do qual se articulam
as intervenções sobre o corpo, sejam elas terapêuticas,
estéticas, educacionais, científicas, etc.
Na
medicina ocidental, por exemplo, o modelo de corpo-máquina
tem sido a referência utilizada para o tratamento de disfunções
e patologias. Segundo Gusdorf (1978), a separação
entre a ciência e a teologia e a dissecação
de cadáveres foram os fatores que contribuiram para que,
na medicina occidental, o corpo fosse percebido como um objeto.
Os
modelos de corpo-objeto e corpo-máquina sustentam propostas
terapêuticas que abordam o corpo de forma segmentar, focalizando
as partes doentes ou disfuncionais do corpo.
Vieira
(1997) afirma que : « (…) nesse modelo, está
o fato de que o corpo passa a ser tratado como um sistema independente
de questões subjetivas e que, com poucas restrições,
responde às leis físico-químicas tal como
o fazem as máquinas.» (VIEIRA,1997, pg. 12)
Sobre
os conceitos contemporâneos de corporeidade, o sociólogo
francês Le Breton (2001) propõe um corpo cuja estética
é ditada pela cultura das academias de aeróbica
(«body building »). O corpo contemporâneo é
essencialmente tecnocrata, pré-simbiotico à cibernética
e terá em breve seu destino manipulado pelos sacerdotes
da genética.
(…)
um corpo cuja única dignidade se cifra na sua transformação
pela técnica. O body builder diz de si mesmo um «
construtor de corpos » (…). A assistência médica
à procriação induz à uma concepção
da criança fora do corpo, à margem da sexualidade,
fora de qualquer relação com o outro (…).
A
comunicação sem corpo e sem rosto da rede [internet]
favorece as identidades múltiplas, a fragmentação
do sujeito engajado numa série de encontros virtuais em
relação aos quais ele adota cada vez um nome diferente,
talvez mesmo idade, sexo, profissão, escolhidos conforme
as circunstâncias. O corpo torna-se dado facultativo.
Paralela
às concepções mecânica e dualista do
corpo, uma outra maneira de conceber o corpo começa a emerger
gradualmente desde o pós-Revolução Industrial.
Filósofos como Merleau-Ponty (1908 – 1961) põem
em evidência a subjetividade do ser humano em sua experiência
corpórea.
Herdeiros
dessa corrente filosófica conhecida como Fenomenologia,
alguns cientistas contemporâneos passam a interessar-se
pelo corpo não mais como objeto, mas como fenômeno
da consciência humana. Varela (1946 – 2001), biólogo
chileno, afirma que : « (…) o problema não
está em que não sabemos suficientemente sobre o
cérebro ou sobre a biologia; o problema é que não
sabemos suficientemente sobre a experiência. »
O
conceito de corpo enquanto experiência toma forma paralelamente
às concepções contemporâneas de «
body builder », « corpo objeto », « corpo
máquina », « corpo cibernético »,
« corpo biomédico » e emerge de uma mudança
de paradigma no mundo das ciências (do Positivismo ao pós-Positivismo)
e do profundo questionamento epistemológico anunciado pela
Fenomenologia.
O
conceito de corpo enquanto experiência se insere numa ideologia
holística e ecológica que preconiza o homem como
um ser total que, como todo ser vivo, tem a capacidade de se auto-regular,
ou seja, de buscar e manter um estado de equilíbrio físico,
psíquico, social e ecológico.
Educação
somática: a experiência e a subjetividade em primeiro
plano.
A
educação somática é um campo teórico
e prático que se interessa pela consciência do corpo
e seu movimento. Muito embora o campo exista há mais de
um século na Europa e na América do Norte, a denominação
“educação somática” foi criada
em 1995 pelos membros do Regroupement pour l’Éducation
Somatique (RES) em Montreal, no Canadá.
Sob a denominação de educação somática
regrupam-se diferentes métodos educacionais de conscientização
corporal dentre os quais se destacam : Técnica de Alexander,
Feldenkrais, Antiginástica, Eutonia, Ginástica Holística,
etc.
Não
nos atardaremos a detalhar cada um dos métodos, mas focalizaremos
o que é comum entre eles : o conceito de corpo enquanto
experiência, de onde se originam os aspectos pedagógicos
da educação somática.
É
unânime entre os professores de educação somática
de diferentes linhas a visão de que o corpo humano é
um organismo vivo indivisível e indissociável da
consciência. O termo somático vem da palavra grega
soma e nos fornece uma pista para compreedermos o conceito de
corpo enquanto experiência.
Hanna
(1979, pg. 50) distingue os conceitos de corpo e soma: «
(…) soma é o corpo subjetivo, ou seja, o corpo percebido
do ponto de vista do indivíduo. Quando um ser humano é
observado de fora, por exemplo, do ponto de vista de uma 3ª
pessoa pessoa, nesse caso, é o corpo que é percebido.
»
Para
os professores de educação somática, a saúde
é um estado de bem estar global da pessoa em seu meio ambiente.
Segundo esta visão da saúde, os diferentes desequilíbrios
das funções fisiológicas, psíquicas,
cognitivas e afetivas são abordados pelo professor de educação
somática como fazendo parte de um todo somático.
Visto
que a motilidade do corpo toca todas as áreas da vida humana,
os métodos de educação somática têm
aplicaçoes as mais variadas. Dependendo da história
de cada aluno, de suas necessidades e de seu engajamento no processo
educacional, a educação somática pode lhe
dar resultados eficazes : na diminuição de sintomas
antálgicos; na melhora da coordenação motora;
na prevenção de problemas músculo-esqueléticos
resultantes de movimentos repetitivos; no desenvolvimento da capacidade
de concentração; na recuperação do
esgotamento físico e mental; na melhora da respiração;
na melhora da flexibilidade muscular e amplitude articular; no
relaxamento de tensões excessivas e ativação
de músculos pouco utilizados; na transformação
de hábitos posturais inadequados e no desenvolvimento da
capacidade de expressão.
Nesse
sentido, os professores de educação somática
atendem uma clientela muito variada, apresentando queixas as mais
distintas : a secretária que deseja prevenir o síndrome
do túnel cárpico e as perturbações
visuais decorrentes de longas horas de trabalho no computador;
o estudante que deseja melhorar sua capacidade de concentração;
o atleta que visa diminuir suas chances de desgaste articular;
o trabalhador que deseja aliviar dores causadas pela bursite ou
tendinite; a criança, cujos pais percebem um problema de
coordenação motora; um cantor, ator ou professor
que necessita melhorar o alcance de sua voz; a dona de casa que
necessita recuperar-se da estafa e do stress psicológico;
o chefe de família cujas dores de coluna diminuem seu rendimento
profissional; o desportista que necessita aprimorar a eficácia
de seus gestos; o músico que visa prevenir problemas articulatórios
e posturais decorrentes de movimentos repetitivos; a bailarina
que deseja refinar sua expressividade; o fisioterapeuta que deseja
complementar seus estudos e abrir seus horizontes profissionais,
etc.
Longe
de ser uma panacéia que promete a cura de todos os males,
a educação somática não exclui o acompanhamento
médico, fisioterápico ou psicológico, caso
necessário. Porém, a particularidade da educação
somática é que suas estratégias são
principalmente educacionais e investem na responsabilização
do aluno.
Para a educação somática, um processo terapêutico
eficaz comporta um aspecto educacional onde a pessoa toma consciência
do papel que seus hábitos de vida têm, tanto no quadro
patológico quanto na prevenção e na solução
de seus problemas.
Consciente de que seu bem-estar é sua responsabilidade,
o aluno se compromete no processo de recuperação
da saúde. Esse compromisso é sem dúvida um
fator que torna o processo eficaz.
Embora
cada método constituinte do campo da educação
somática tenha sua própria história e técnicas,
todos utilizam uma grande variedade de exercícios onde
o aluno estará deitado, sentado, em pé ou movimentando-se
através do espaço.
É
frequente a utilização de acessórios tais
como bolas de borracha de diversos tamanhos, bastões de
madeira, tubos de papelão, sacos de areia, etc. As aulas
podem ser em grupo ou individuais e sua duração
média é de 1hora e 30 minutos.
Para
tornar o conceito de corpo enquanto experiência mais tangivel,
o ilustraremos através de três estratégias
pedagógicas propostas pelos professores de educação
somática: o aprendizado pela vivência; a sensibilização
da pele e a flexibilidade da percepção.
Há
uma estreita relação entre essas noções,
nosso objetivo em separá-las é o de facilitar a
leitura.
O
aprendizado pela vivência
Nas
aulas de educação somática, o foco não
é o tratamento nem a correção de disfunções
fisiológicas ou psicológicas. O professor de educação
somática não prepara suas aulas em função
somente dos sintomas apresentados pelos alunos, porque consideramos
que o sintoma é um “reflexo de todo um sistema que
necessita reorganizar-se » .
Propõe-se ao aluno a vivência de uma organização
corpórea mais global e equilibrada, sendo por isso, mais
funcional.
Os
diferentes métodos de educação somática
utilizam estratégias pedagógicas que visam levar
o aluno a tomar consciência da relação entre
os sintomas que ele apresenta e a totalidade de seu corpo.
O
aluno entra na primeira etapa do caminho de reestabelecer seu
equilíbrio quando ele é capaz de reconhecer que
os sintomas físicos ou psíquicos que ele apresenta
têm estreita relação com sua maneira habitual
de organizar seus movimentos e com a percepção que
ele tem do corpo.
A
intenção do professor não é a de corrigir
o aluno. É a própria experiência do aluno
que torna-se « o veículo da mudança »
, como propõe Greene (1997) . Essa fase de tomada de consciência
faz parte de um processo de (re)aprendizagem. A neuróloga
e educadora norte-americana Hannaford aborda a capacidade inata
que temos de aprender e reaprender :
Na
medida em que crescemos, nos movemos e aprendemos, as células
de nosso sistema nervoso se conectam entre si formando padrões
neurais complexos. A plasticidade é uma característica
intrínsica do sistema nervoso que nos permite de aprender
e nos adaptarmos em resposta à traumatismos [físico
e/ou psíquico]: re-aprender.
O
objetivo do professor de educação somática
é de levar o aluno a tomar contato com as sensações
que ele tem de seu próprio corpo. O professor visa sobretudo
despertar a atenção do aluno ao processo de aprendizado
dos exercícios. A ênfase do ensino é posta
não sobre o quê se aprende mas como se aprende.
Nesse
sentido, o professor de educação somática
não apenas ensina exercícios, mas ele dirige a atenção
de seus alunos de maneira que eles aprendam a sentir e perceber
o que o corpo faz quando realiza os exercícios.
O
aluno é levado a concentrar-se no movimento proposto, evitando
um comportamento automático e ausente. Ele aprende o conteúdo
do exercicio através de sua própria experiência
e não a partir de teorias ou manuais, nem copiando o modelo
cinestésico do professor. A experiência do aluno
é valorizada pelo professor como sendo única na
medida em que seu objetivo é levá-lo a tomar contato
com o aspecto subjetivo de seu corpo.
Varela
(2000) fala sobre a validação da subjetividade no
campo da ciência cognitiva : « Na verdade, dentro
da ciência cognitiva, na área de estudos sobre a
consciência, essa noção implica voltar-se
a trabalhar com a experiência, a importância de se
considerar seriamente a experência subjetiva (…) »
A subjetividade do aluno, para o professor de educação
somática, nao é «coisa pessoal» ou «pura
opinião», conforme afirma Vieira (1997, pg. 3): «
a subjetividade passa ao status de fonte de dados. ».
Tendo
em conta que o processo de aprendizado na educação
somática visa validar a experiência subjetiva de
cada aluno como fonte de conhecimento, o professor evita julgar
o discurso que seus alunos têm sobre seus próprios
corpos ou de impor seus valores sobre a estética ou a eficácia
do corpo.
Seu papel é sobretudo o de guiar o aluno em suas descobertas
somáticas, suscitar uma reflexão sobre a corporeidade
e formar nos alunos um senso crítico sobre os valores sócio-culturais
de estética e saúde.
Para
o professor de educação somática, uma aprendizagem
autêntica e durável é fundamentada na experiência,
porque, conforme afirma Hannaford, « O aprendizado é
experiência e sensação.
A
sensação constitui a base a partir da qual se desenvolvem
conceitos e idéias.» Dentro desse ótica, o
campo da educação somática fundamenta-se
numa contínua sistematização e estruturação
do conhecimento empírico: a prática é a base
da teoria.
Débora
Bolsanello 2005
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