02/10/06
Brasília
- Sempre tive medo de aviões. Mesmo quando não entendia
alguns dos meus medos, sabia que a altura não me agradava.
Talvez fosse uma percepção precoce de que o chão
é um imã para as almas atormentadas, quando as mesmas
almas se encontram a dezenas de metros acima das plantas. Na última
sexta-feira, um avião da empresa aérea Gol cai no norte
do Mato Grosso e matou, se não me engano, 155 passageiros e
seis tripulantes.
O maior
acidente da avião civil nacional. Jornais, às vesperas
das eleições, relatavam a tragédia desse avião
que se chocou com outro menor em pleno ar. Na verdade, foi uma batidinha
de leve que provocou a queda do maior. O avião pequenino conseguiu
se livrar de um final mais breve.
O presidente
Lula decretou luto oficial de três dias. E votamos para presidente
da República sob luto oficial. Nada mais justo, nada mais certo.
Atitude irretocável essa a do Planalto. E o brasileiro foi
às urnas, sob luto oficial, para escolher o seu presidente
da República. Há por aí quem possa dizer que
a nossa eleição é um exemplo. Deve ser mesmo,
porque tanta gente considerada fala que o nosso processo eleitoral
é isso ou é aquilo; que deve ser mesmo.
Bom,
o presidente Lula vai ao segundo turno contra o candidato Geraldo
Alckmin, do PSDB. Antes de tecer comentários sobre o PT, cabe
aqui dizer que PT e PSDB são muito mais íntimos do que
demonstram. São partidos paulistas até demais. E isso
é grave. A polarização PT x PSDB não existe.
Puro jogo de cena político.
Lula
conseguiu coisas impossíveis durante o seu governo. Resistiu
como ninguém a ataques violentos, a provas contudentes, a fatos
inquestionáveis. Qualquer político da atualidade sairia
do trono com apenas 20% do que Lula resistiu. Se podemos definir o
Lula político em uma única palavra, digamos que essa
palavra seja: resistência. Como diria uma cunhada favorita,
Lula mais parece um carrapato grudado ao poder.
O presidente,
que nos comícios declarava aos quatros ventos que venceria
as eleições no primeiro turno, terá que enfrentar
mais esses dias que virão. E os dias que virão serão
bastante tristes para todos... Como será que Lula conseguiu
não ser reeleito no primeiro turno? Por que a imprensa, tão
acusada pelo próprio PT, já dava como certa a reeleição
de Lula nesse primeiro turno? Por que os institutos de pesquisa existem?
Sempre
tive medo de eleições. Em especial, das eleições
brasileiras. Nunca me dou muito bem num contexto de muita esperança.
Seria bom que no segundo turno, o eleitor soubesse que os dois candidatos
não são opostos, não são polarizados,
não são nem sequer adversários. É a manutenção
da hegemonia paulista no domínio do Planalto.
Vamos,
por motivo de honestidade, conservar o luto que acaba oficialmente
amanhã, mas que deveria ser perpetuado pelo tempo que insiste
em envelhecer tudo. Só não envelhece, e mata de vez,
essa esperança idiota que trazemos em cada eleição.
Nada contra as esperanças idiotas. Mas sempre tive medo das
esperanças alheias. E sempre choro ao afogar as minhas próprias.
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