Brasília
- A situação do presidente do Congresso Nacional
brasileiro, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), inspira reflexões
mais profundas do que as que alcançam os que discutem
o tema apenas no calor dos acontecimentos.
A
revista Veja, por exemplo, trouxe mais uma pancada contra
o senador alagoano em sua edição mais recente.
Desta vez, a publicação semanal entrevistou
um empresário que teria sido sócio de Renan
na aquisição de duas rádios e um jornal
no Estado de Alagoas. O empresário João Lyra
confirmou o que a reportagem de Veja afirmara há
uma semana: Rena teria usado laranjas para comprar empresas
de comunicação.
O
parlamentar partiu para a ofensiva, ao invés de ficar
negando sistematicamente toda edição da revista,
e denunciou na semana passada a tentativa de venda da emissora
de televisão por assinatura TVA (de propriedade do
Grupo Abril – que publica a revista Veja) a um grupo
estrangeiro, a empresa de telefonia espanhola Telefônica.
O negócio estaria em torno de R$ 1 bilhão
de dólares e fere a Constituição brasileira,
que proíbe a concessão na íntegra de
TVs a estrangeiros.
Renan
avisou que enviou ofícios à Polícia
Federal, ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica
(Cade), ao Ministério das Comunicações,
à Comissão de Valores Mobiliários,
ao Planalto e ao parlamento da Espanha; solicitando informações
do que chamou de “escuso e pantanoso negócio”
da Editora Abril.
O
teatro em torno do presidente do Congresso está formado
(isso não é de agora) e cabe aos jornalistas
apenas acompanhar o desenrolar dos fatos, numa espécie
de novela mórbida diária que fere a alma de
muita gente pelo país afora.
Mas
será realmente este o papel destinado aos jornalistas?
Existiria alguma outra modalidade de comunicação
também apropriada aos profissionais da imprensa,
tão costumeiramente taxados de superficiais e meros
reprodutores de acontecimentos?
Existe
sim. Isto é o que prova o renascimento do caderno
Le Monde Diplomatique Brasil. Em um artigo intitulado “A
democracia em disputa”, o sociólogo e diretor
da publicação, Silvio Caccia Bava, analisa
o comportamento político do continente latino americano
nesses tempos de economia neoliberal aprofundada.
Não
tenho pretensões de realizar essas análises
tão vastas em tempo e espaço porque minha
ótica de jornalista tratou de castrar tentativas
de vôos mais amplas. É a pressa das redações,
é a ditadura da velocidade, é o relógio
que costuma correr como louco...
Mas
em tempos de crise institucional do Congresso, com seu presidente
sendo acusado semanalmente pela maior revista brasileira;
em que movimentos como “Cansei” são demonizados
ou ridicularizados; cabe aqui também defender o sagrado
direito de questionamento de instituições.
Ninguém tem a menor dúvida de que o Congresso
é uma conquista democrática. Contudo, seria
este o modelo de Congresso ideal? Ninguém também
tem dúvida de que o presidente Lula é um fenômeno
de popularidade, um recorde eleitoral, um dos maiores líderes
na atualidade.
Diante
deste quadro, surgem algumas questões: propor uma
nova modalidade de Parlamento, este do jeito que anda se
limita a ser um mero produtor de escândalos, é
ser golpista, é ter o pé num quartel de outrora?
Criticar o atual governo se trata de alguma forma de subversão
contemporânea? Os que porventura estão descontentes
com o governo são elementos nocivos a uma revolução
esquerdista brasileira?
Eis
o que diz Silvio Caccia Bava: “De maneira geral, os
setores conservadores identificam as mobilizações
e protestos sociais que demandam mudanças como perturbação
da ordem democrática e criminalizam os movimentos.
Para resistir às pressões por mudanças,
dizem que estas debilitam as instituições
democráticas e ameaçam com a volta de regimes
autoritários. Tal ameaça traz uma mensagem:
é melhor aceitar a democracia como ela se apresenta,
com suas fragilidades e imperfeições, do que
trilhar mais uma vez o caminho do autoritarismo e das ditaduras.”
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