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Rodolfo Torres

A exumação

Jornalista rodolfotorres@bayoubrasil.com

 

27/11/06

Rodolfo Torres Brasília - O Diretório Nacional do PT se reuniu em São Paulo nesse final de semana passado para debater um monte de coisas. O presidente Lula, é claro, deu o ar da graça e falou a respeito de um resgate de imagem do partido. Mas esse é um tema que quero tratar em parágrafos posteriores. Cabe agora dizer que o PT aprovou a idéia de um governo de coalizão para o segundo mandato de Lula, onde um novo tipo de diálogo com as mais variadas forças políticas seja implementado.

A tradução disso é a mais ou menos essa: o mensalão não pegou bem e agora o partido precisa ter aquele monte de conversa chata com um monte de gente chata na Câmara, no Senado, no Judiciário, nos Estados, no empresariado, nos partidos e no próprio PT. Cabe aqui fazer um paralelo sem originalidade, mas que traduz com certa fidelidade o que acontece: o PT é o lobo do PT.

Os petistas também aproveitaram para reclamar da imprensa, que depois da reeleição está mais suave para com o presidente, e afirmaram que o próximo mandato de Lula não contará com a chamada "despetização" do governo. O partido ainda terá muitos cargos dentro da administração pública federal e, ao que tudo indica, a tendência do PT de empregar amigos continuará. Mesmo depois dos conselhos de Lula a 16 governadores, o aparelhamento cotinuará bem, obrigado.

Também durante o encontro, ficou decidido que o Congresso Nacional do PT será antecipado para julho do próximo ano. Mas isso não é importante. Fundamental foi, mais uma vez, as declarações de Lula. Certamente tem um monte de gente anotando as pérolas que o nosso chefe de Estado libera. Lula não resiste a um microfone, a uma platéia, a uma câmera global. O presidente disse, no sábado à noite, que o PT deveria voltar a ser exemplo para o país. Ou seja, Lula quer que o país volte ao puritanismo político.

A maior contribuição do governo do PT foi o assassinato da inocência. O PT fez com que toda e qualquer espécie de ingenuidade morresse. Isso também fez com que as campanhas políticas se tornassem mais frias, pois a militância religiosa não grita aos quatro ventos que o Brasil é mal governado. Mas essa descrença na política é mais do que necessária e benéfica, é fundamental para admitir alguma possibilidade de progresso.

Sem a inocência, podemos tratar do que realmente importa, do que é necessário. Nada contra os discursos, as ideologiais e o falatório. Nada contra as teses, os livros, as cartas raivosas em jornais de faculdade. Nada contra, absolutamente nada contra, os amores universitários que florescem por afinidades políticas. Mesmo hoje em dia, ainda temos casos desse tipo. Nada contra o sujeito que boicota a Coca-Cola por ser favorável a Cuba, a quem compra camiseta do Che, a quem pensa que o esquerdismo é a maior experiência da condição humana.

Mas o PT não pode voltar a ser o exemplo que era no Brasil, simplesmente porque ninguém passa sem marcas pela Presidência da República. O PT deve permanecer como está: apenas como mais um partido político perdido nesse conturbado jogo da política brasileira. Éramos mais felizes quando acreditávamos que o PT seria a solução de todos os problemas? Sem dúvida alguma. Mas alguns tipos de passado não podem voltar. Cabe confessar que a esperança do ontem tenta superar a tristeza do hoje. Mas não há como retornar a um passado marcado pela cegueira e pela ingenuidade induzida, estimulada, vigiada e maldita.