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Rodolfo Torres

Não entendemos

Jornalista rodolfotorres@bayoubrasil.com

23/10/06

Rodolfo Torres Brasília - As noites de domingo sempre foram mortais. Essas noites trazem consigo as chaves que abrem portas indesejadas, e não é raro uma lágrima perdida cair no travesseiro e morrer iluminada apenas pela luz do aparelho de televisão. Existe uma distância feroz entre a felicidade e a noite do domingo. Não entendo por que a programação da TV insiste em tornar essa noite ainda mais dolorosa para todos.

Mas hoje eu quero falar de esperança, de alegria, de paz interior. Quero aqui declarar para os que chegaram a esse segundo parágrafo, e que por ventura não entendem de políticia, que eles não estão solitários nessa ignorância. Na verdade, não existe ser humano que entenda a política brasileira. A nossa política foi feita para ser um mistério permanente. E quem se declara conhecedor nesse campo, ganha imediatamente ares de onisciência.

Analistas políticos, acadêmicos, e outros tantos por aí apenas soltam seu achar e se os outros aceitarem, tudo estará bem. O que não existe, e é uma verdadeira pena que não exista, é a confissão. Ainda não temos alguém que venha a público e declare: minhas senhoras e meus senhores, discutimos e falamos sobre política durante anos e mais anos, mas não entendemos absolutamente nada desse assunto porque a nossa política não foi feita para ser entendida.

O fato é que as idéias, que deveriam aparecer em algum momento do debate político, não existem, simplesmente não existem. A discussão política é exclusiva em torno de personagens, de atores desse cenário pobre, medíocre, pequeno e enfadonho da política brasileira. O jornalismo político até se esforça para torná-lo um pouco apetitoso. Conseguiria, se unisse a linguagem da política à linguagem policial.

Portanto, não entender a política brasileira é comum a todo ser vivo. Basta nascer para não entender o que se passa na nossa política. Basta morrer para permanecer, em relação ao entedimento da política, como nasceu. E já que todos não entendemos o que diabos é a política do Brasil, vamos nos dedicar a algo mais importante e que dê mais prazer.

Vamos falar da moça bonita que vai à padaria e que ganha um chocolate pelo belo sorriso, ou do bolo preparado no sábado pela manhã para o café do final da tarde. Podemos conversar a respeito da chuva fina que agora cai na capital federal e que aumenta a saudade de um abraço mais forte, ou da pregüiça companheira que não permite que um chá seja preparado. O assunto pode até ser o mato que cresce entre as pedras das ruas de cidades afastadas e cheias de vida. Qualquer tema, nesse início de semana, é necessário. Qualquer um.

Só não aceito alguém dizer que entende de política nesse país. Admito que alguém possa entender de pesca, de mecânica, de confeitaria, de limpeza de pele e de futebol. De política, não existe. Até porque não existe explicação possível para a nossa política, e isso talvez tenha o seu lado positivo. É pena que esse tema abstrato, e lúdico, seja tratado com tantas amarras, e com uma linguagem tão distante.