O
Brasil foi um dos primeiros países do mundo a dominar
a tecnologia de fibras ópticas, ainda no final dos anos
70. Essa vitória se deveu, em grande parte, ao trabalho
do professor José Ellis Ripper Filho, na Unicamp.
Acreditando
nas perspectivas da fotônica, ou seja, das comunicações
via fibras ópticas, Ripper fundou em 1989 a AsGa, empresa
constituída para produzir lasers semicondutores de arseneto
de gálio e outros produtos de microeletrônica.
O processo de abertura acelerada do mercado brasileiro no governo
Collor tornou inviável a produção nacional
de lasers, mas a empresa partiu para novos segmentos e sobreviveu.
O
aumento contínuo da velocidade dos sistemas de transmissão
de informações e telecomunicações
deve-se ao uso da luz em sistemas de comunicações.
So com o uso de comunicações ópticas (baseadas
em luz) é possível atingir hoje velocidades de
transmissão de centenas de Gigabits por segundo. Isto
se tornou possível a partir da descoberta de fibras ópticas
com baixas perdas de luz, ocorrida nos anos 70.
O
Brasil entrou cedo nesta atividade, com a instalação
do Projeto de Pesquisa em Sistemas de Comunicação
por Laser no Instituto de Física da Unicamp em 1973,
financiado pela Telebrás. Este projeto foi liderado pelo
prof. José Ellis Ripper Filho.
Em
1977 foram fabricadas as primeiras fibras ópticas nos
laboratórios do Instituto de Física Gleb Wataghin.
Em 1978 a tecnologia começou a ser transferida para o
Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás, o CPqD,
em Campinas.
Este
processo ilustra uma característica fundamental da transferência
de tecnologia entre organizações - o sucesso do
projeto se deveu à transferência de cientistas
da Unicamp para o CPqD. Em 1983 a tecnologia foi transferida
do CPqD para a empresa ABC Xtal, localizada também em
Campinas (vizinha do CPqD). Novamente a transferência
de cérebros foi fundamental, com a migração
de cientistas do CPqD (muitos vindos da Unicamp) e da Unicamp
para a ABCXtal.
Campinas
não virou pólo tecnológico por acaso. Se
as grandes empresas de telecomunicações e informática
se instalaram na região nos últimos anos, com
a abertura do mercado, foi porque já existiam recursos
humanos de alta qualidade formados por universidades como a
Unicamp.
O
Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW), da Unicamp,
pesquisa na área de comunicações ópticas
desde 1971. O primeiro contrato de pesquisa & desenvolvimento
(P&D) feito no Brasil foi feito entre a Unicamp e a Telebrás
em 1974. Em 1976, a primeira fibra óptica nacional levou
à criação do Centro de Pesquisa & Desenvolvimento
(CPqD), com pesquisadores do instituto, na cidade. Em 1978,
eles também fariam o primeiro laser de diodo da América
Latina.
O
que aquele grupo de cientistas - muitos deles vindos dos EUA,
onde trabalhavam em centros de pesquisa como o Bell Labs - não
imaginava é que, ao longo dos 20 anos seguintes, muitos
se tornariam empresários. Diversas pequenas empresas
nasceram das atividades do IFGW ao longo desse período,
como AsGa, Fotônica, Xtal, Unilaser, Optolink, Ecco, AGC
NetTest e Laser Lab. Em 2000, essas empresas faturaram mais
de R$ 250 milhões em conjunto.
A
Xtal Fibras Ópticas, (comprada pela Fiber Core. EUA),
agora denominada Xtal Fibercore Brasil, é hoje o maior
fabricante de fibras ópticas no Brasil produzindo anualmente
mais de 1.100.000 km de fibras ópticas - 35% das fibras
comercializadas no país.
O
faturamento anual da empresa é superior a 45 milhões
de dólares e 20% de sua produção é
destinada à exportação. O programa de pesquisa
e desenvolvimento de tecnologia para fabricação
de fibras ópticas do Instituto de Física da Unicamp,
do CPqD e da Abc Xtal tem todos os elementos essenciais do desenvolvimento
tecnológico: a universidade gerando conhecimento fundamental
competitivo internacionalmente e formando recursos humanos,
o centro de pesquisas ligado à empresa desenvolvendo
a tecnologia e a empresa prosseguindo continuamente no desenvolvimento
da tecnologia empregando para isto os cientistas e engenheiros
formados na universidade. Não sem razão este programa
foi qualificado como "um dos poucos e talvez o melhor exemplo
de programa de P&D bem sucedido, no País".
A
peculiaridade neste caso é que a transferência
de tecnologia se deu em conjunto com a tranferência de
recursos humanos. Hoje altos dirigentes da ABC Xtal são
pesquisadores que lideraram o projeto na Unicamp nos anos 70.
Além
destes profissionais, técnicos e alunos deixaram a Universidade
e foram para a empresa, num processo enriquecedor para ambas
as empresas. O êxito da ABC XTAL, tal como o observado
no desenvolvimento do sistema TROPICO de centrais telefônicas,
fez os preços internacionais despencarem.
Assim,
enquanto que no início de sua produção
a ABC XTAL vendia em 1986 fibras óticas ao preço
de 0,02US$/metro o respectivo preço internacional era
de 0,6US$/m. Uma década mais tarde, em 1996, os preços
da ABC XTAL e os preços internacionais ficam praticamente
iguais, em torno de 0,1US$/metro. No mesmo período a
produção da ABC XTAL saltou de 20Km/ano para 250Km/ano.
A
AsGa é resultado da luta do prof. José Ripper,
mestre e PhD pelo famoso Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT). Nos anos 70, Ripper trabalhava em pesquisa nos Laboratórios
Bell, num projeto de laser de semicondutor capaz de operar continuamente
em temperatura ambiente.
A
pesquisa vitoriosa baseava-se nas idéias do cientista
russo Zhores Alferov, do Instituto Yoffe de São Petersburgo,
que ganhou o prêmio Nobel de Física do ano passado.
Desde aquela época, Ripper tinha certeza de que as comunicações
ópticas iriam ter a importância e o desenvolvimento
extraordinários que têm hoje.
A
estratégia posta em prática foi a de aproveitar
a oportunidade única ensejada por uma tecnologia nascente
para inserir o Brasil na vanguarda do processo. Sua tese foi
aceita pela Telebrás e pelo Ministério das Comunicações,
que passaram a apoiar as pesquisas na Unicamp para que o País
entrasse nesse segmento e acompanhasse de perto o desenvolvimento
da nova tecnologia, juntamente com os países desenvolvidos,
como efetivamente ocorreu. Ripper comandou, então, uma
equipe no Laboratório de Pesquisas em Dispositivos (LPD)
do Instituto de Física.
O
financiamento mais pesado de um projeto como esse só
poderia vir de uma empresa do porte da Telebrás.
O
diretor da AsGa Microeletrônica, José Ellis Ripper
Filho, engenheiro formado no ITA e pós-graduado no MIT
que, ao voltar dos EUA, participou das pesquisas em comunicações
ópticas da Telebrás. "Nunca pensei em trabalhar
em empresa", diz Ritter.
Mas
nos anos 80 ele seria diretor técnico da Elebra, empresa
do grupo Docas de Santos, que fracassaria no Plano Cruzado e
mais tarde seria vendida para o Itaú. Em 1989, Ritter
e seus sócios compraram a parte dedicada à fabricação
de componentes para fibra óptica. Novo fracasso viria
com a abertura aos importados no governo Collor. "A indústria
nacional de componentes eletrônicos era muito boa, mas
não teve como competir. As empresas começaram
a importar os equipamentos inteiros." A reconstrução
começariam nos anos de 92 e 93 e, apesar da crise, não
se perderam os clientes. "Então decidimos verticalizar
a empresa", conta Ritter. "Passamos a fabricar equipamentos
ópticos, importando a maior parte dos componentes."
Paralelamente,
outro pesquisador, Rege Scarabucci, iniciou um projeto de transmissão
digital, na Faculdade de Engenharia da Unicamp, sob a coordenação
de Ripper e com apoio da Telebrás, antes da criação
do CPqD. Todo esse esforço inicial ganhou novas dimensões
e, com o trabalho do CPqD, a partir de 1976, tornou-se viável
o desenvolvimento e a produção industrial de fibras
ópticas, de sistemas de transmissão e comutação
digitais, de que é exemplo as centrais telefônicas
Trópico.
Para
Alencastro e Silva, ex-presidente da Telebrás, o melhor
resultado dos projetos iniciados pela Unicamp e CPqD bem como
pela USP na área de comutação digital não
foram os produtos que dali nasceram, mas, sim, "a formação
de pesquisadores e de profissionais de alto nível, num
processo único de criação de competência
brasileira em setores de tecnologia de ponta."
A criação da AsGa em 1989 contou com o apoio de
João Augusto MacDowell, empresário do setor automotivo
e colega de turma de Ripper no ITA, que não só
forneceu recursos, mas ensinou os pesquisadores a gerir uma
empresa. Atualmente, participam como sócios e diretores
da indústria Francisco Mecchi e o Francisco Prince, pesquisadores
que se juntaram ao projeto da Unicamp em 1974. Em anos mais
recentes, veio Cláudio Gouveia, ex-IBM, para cuidar de
logística e do programa industrial.
Depois
de vencer todos os desafios, a AsGa se consolida na área
de fotônica, produzindo os primeiros modens ópticos
capazes de funcionar de menos 10 a mais 65 graus C, e destinados
tanto para exportação como para uso em ambientes
externos no Brasil. Com esse avanço, o Brasil é
um dos poucos países do mundo a desenvolver um projeto
tão ambicioso quanto o de um sistema SDH, de hierarquia
digital síncrona, para transmissão óptica
em altíssima velocidade.
Um
físico fluminense, doutorado na Universidade da Califórnia,
em Stanford, Estados Unidos, dono de extrema habilidade para
construir máquinas e testemunha da criação
da primeira rede de fibra óptica no Brasil. Outro físico,
professor ainda enquanto cursava os últimos anos da graduação
e um dos primeiros profissionais brasileiros especializados
em fibra óptica.
E
um especialista em software hábil em administração
e dono de visão de negócio estratégica.
Francisco Smolka, Ildefonso Félix de Faria Júnior
e Renato Toi dirigem e acompanham o dia-a-dia da OptoLink Indústria
e Comércio, empresa que, com os incentivos da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp),
desenvolve componentes para redes de fibras ópticas.
Com
sete funcionários na linha de produção
e quatro estagiários em projetos de desenvolvimento de
tecnologia, a empresa se prepara para comercializar produtos
no mercado externo e enfrentar a forte concorrência chinesa.
Querem duplicar o faturamento anual, atualmente na faixa de
R$ 1 milhão.
A
OptoLink faz parte do arranjo produtivo de Campinas ligado à
fotônica, nome dado às tecnologias ligadas ao emprego
industrial de instrumentos que envolvem luz, como raios laser
e fibras ópticas. O foco da empresa é desenvolver
e vender componentes utilizados em linhas de fibra óptica
para condomínios, fábricas, escolas e universidades.
Esses componentes amplificadores, acopladores, fontes de luz
e sistemas de monitoramento servem, principalmente, para garantir
que o sinal que contém informação se mantenha
constante ao viajar dentro da fibra.
A
empresa nasceu em agosto de 1998, como um braço de pesquisa
e desenvolvimento da AGC, empresa paulistana ligada a telecomunicações.
Além dos investimentos da AGC, Ildefonso conseguiu também
recursos públicos: "Uma parte importante do dinheiro
veio do Pipe (o programa Inovação Tecnológica
em Pequenas Empresas, da Fapesp) para aplicar no desenvolvimento",
lembra. Com essa verba, a OptoLink conseguiu financiar a pesquisa
que resultou, depois de dois anos, na produção
de amplificadores ópticos.
Apesar
de terem conseguido desenvolver a tecnologia dos amplificadores,
a OptoLink não conseguiu vender o que tinha acabado de
produzir, pois as operadoras de telecomunicações
compravam de grandes multinacionais os sistemas de transmissão
de informações completos. E essas multinacionais,
como a Lucent e a Ericsson, adquiriam esses produtos do exterior.
Além disso, a essa altura, a OptoLink já não
tinha mais a AGC como sócia.
A
parceira foi vendida para um grupo multinacional, que não
investiria em pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Sabendo
disso, Ildefonso teve de comprar os 60% da participação
da AGC.
Assim,
o empresário teve a idéia de fabricar não
os amplificadores, mas alguns de seus componentes. A OptoLink
decidiu investir nesses equipamentos depois de perceber que
se tratava de um mercado que movimentava milhões de reais
no Brasil. "Existia a possibilidade de vender acopladores
por um preço muito competitivo em relação
aos provenientes de países asiáticos.
Então, pedi verba adicional para desenvolver a tecnologia
industrial de acopladores ópticos e a Fapesp concordou",
diz Ildefonso. Os acopladores ópticos significaram a
primeira conquista da OptoLink, quando a empresa ainda era incubada
no Pólo de Empresas de Alta Tecnologia de Campinas, o
Ciatec, ligado à prefeitura da cidade.
Com
a venda de acopladores, a empresa conseguiu dobrar o faturamento
ano a ano, entre 2000 e 2003. A OptoLink fabrica doze tipos
de acopladores adaptados aos diferentes comprimentos de onda
dos sinais luminosos e às diferentes características
da linha e, de acordo com Ildefonso, deve desenvolver outros,
pois tem crescido o número de aplicações.
"A tecnologia de acopladores é conhecida na literatura
há mais de 20 anos. Mas foi implementada na prática
pela primeira vez no Brasil, em escala industrial, por nós",
conta Ildefonso.
Os
diretores estudaram e começaram a trabalhar na década
de 1970, época em que o Brasil investia pesadamente em
pesquisa e desenvolvimento em telecomunicações
e a tecnologia nacional não estava muito atrás
da americana, européia ou japonesa. Smolka trabalhou
até 2001 na ABC XTal, que chegou a ser a única
produtora de fibra óptica no País.
Já Ildefonso trabalhou com fibra óptica, lasers
e semicondutores durante quinze anos no Centro de Pesquisa e
Desenvolvimento (CPqD), da extinta Telebrás. Sentindo-se
incomodado com a decisão do governo de abandonar o desenvolvimento
de lasers e fibra óptica, ele decidiu criar uma empresa
para explorar essa tecnologia.
Transformado
em fundação privada em 1998, durante o governo
de Fernando Henrique Cardoso, o CPqD é uma das maiores
instituições de pesquisa em telecomunicações
do mundo. Com mais de duzentas patentes depositadas, o órgão
foi o responsável pelo desenvolvimento de projetos de
comunicação sem fio, dos telefones públicos
operados por fichas e cartões e da fibra óptica.
Para
isso, o CPqD contou desde sua origem, em 1975, com o trabalho
de professores e alunos do Instituto de Física da Unicamp,
caso de Ildefonso. As pesquisas desenvolvidas na universidade
e no centro de pesquisa resultaram na formação
do maior pólo de empresas de telecomunicações
do Brasil.
A
idéia básica da fibra óptica é transmitir
informações à velocidade da luz. Feixes
de luz percorrem o interior de um fio de 0,1 milímetro
de diâmetro, levando informações codificadas
em sinais de luz. Ocorre que parte dessa energia luminosa pode
ser perdida ao longo da linha, o que impediria a comunicação
de longa distância.
Para
contornar o problema da atenuação do sinal de
luz, existem os amplificadores ópticos, instrumentos
compostos de uma fibra especial e um laser que fornece energia
adicional. Normalmente são usados na origem da linha,
junto à fonte de luz, mas, dependendo da distância,
também podem ser instalados ao longo da linha de fibra
óptica ou em seu final. Os amplificadores foram os primeiros
componentes fabricados pela OptoLink, criados com os conhecimentos
de física e eletrônica de seus sócios.
Já
os acopladores ópticos são componentes de três
milímetros de diâmetro produzidos a partir da fusão
de fibras ópticas. Eles podem combinar ou separar sinais
luminosos, permitindo que a mesma fibra seja usada para enviar
e receber dados, o que reduz o custo de construção
dos sistemas de transmissão. "Quando transmitimos
e recebemos sinais, normalmente precisamos de duas fibras.
Mas podemos colocar os dois sinais na mesma fibra. Fazendo um
paralelo com eletricidade, seria um "benjamim óptico?",
explica Ildefonso. Fabricados com uma tecnologia de fusão
das fibras, os acopladores são o carro-chefe da OptoLink.
E, mais recentemente, a empresa começou a desenvolver
e comercializar sistemas de monitoramento de linhas de fibras
ópticas usadas em plantas industriais.
Ildefonso explica que, sem o sistema, a empresa poderia perder
a comunicação com a planta e nem ficar sabendo
disso, caso as linhas de fibra óptica se rompessem. Com
o sistema, a empresa seria alertada e poderia tomar providências
para evitar a interrupção da produção.
Fonte:
http://www.santista.com.br/fundacao/galeria/exatas/pagina.htm
http://www.mct.gov.br/publi/compet/krieger.pdf
http://www.ifi.unicamp.br/IFWeb-PT/comunicacoesopticasnoifgw.htm
http://www.estado.estadao.com.br/colunistas/siqueira/2001/11/siqueira011125.html
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