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Produção de Etanol

 

28/12/06 - Resíduos agrícolas como o bagaço da cana-de-açúcar e as palhas de arroz, trigo, soja e milho, que geralmente sobram nas plantações e vão para o lixo, agora têm um destino mais nobre.

Já é possível transformá-los em etanol (álcool combustível) a partir de uma nova bactéria desenvolvida pela engenharia genética. Usando o bagaço, matéria-prima abundante no Brasil, para a produção de combustível, as usinas podem aumentar sua produtividade em até 15%.

A descoberta é fruto de uma longa e importante pesquisa realizada pelo cientista brasileiro Flávio Alterthum, juntamente com dois cientistas norte-americanos, Lonnie O. Ingram e Tyrrell Conway, na Universidade da Flórida.

Os três pesquisadores conseguiram, em laboratório, o que faltava para concretizar a experiência: um microorganismo que pudesse agir sobre outros açúcares diferentes da sacarose (xilose, arabinose, galactose, lactose) os quais a levedura (usada no método tradicional) não transforma em etanol.

A pesquisa "Produção de Etanol a partir de Hidrolisado de Bagaço da Cana-de-Açúcar Empregando Escherichia coli Recombinante" começou há 10 anos, mas só agora chega ao ponto crucial: vai ser testada em grande escala.

Há dois anos, a empresa Bionol International está montando nos Estados Unidos, no estado da Louisianna, uma usina-piloto para finalmente desenvolver o etanol a partir do bagaço de cana. Apesar das inúmeras tentativas de Flávio Alterthum, no Brasil, nenhuma usina ou usineiro demonstrou interesse em bancar a promissora experiência.

"A idéia inicial era criar uma bactéria capaz de transformar outros tipos de açúcar abundantes na natureza, especialmente em resíduos agrícolas que normalmente são jogados fora, e produzir um combustível alternativo à gasolina", conta Alterthum, professor titular (aposentado) do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e da Faculdade de Medicina de Jundiaí (Microbiologia). Ele é também professor visitante da Universidade da Flórida.

O projeto para desenvolver a nova bactéria tornou-se um dos trabalhos de pós-doutoramento do professor, realizado entre 1987 e 1989. Para o tão sonhado "casamento genético", que aconteceria algum tempo depois, foram escolhidos dois microorganismos muito diferentes entre si: a bactéria Zymomonas mobilis, capaz de produzir álcool com muita eficiência, mas utilizando poucos tipos de açúcares, e a Escherichia coli, que não produz o etanol, mas é capaz de utilizar diversos açúcares. A primeira é encontrada no mel e a segunda vive no intestino humano.

Flávio Alterthum foi o responsável pela transferência da informação genética da Z. mobilis que faltava na E. coli e pela observação de como essa modificação se expressava na nova bactéria.

Antes, porém, os genes de Zymomonas foram clonados e seqüenciados pelos pesquisadores americanos. A bem-sucedida experiência foi patenteada nos Estados Unidos com o número 5.000.000, em 19 de março de 1991. Números redondos como este são concedidos apenas às grandes descobertas, segundo o professor.

A patente equivalente PI 9205782-9 depositada no Brasil via PCT em março de 1992, tendo o pedido americano como prioridade, foi indeferida pelo INPI porque a lei de propriedade industrial vetava a patenteabilidade de produtos químicos e microorganismos.

Convidado em 1991 a receber as honras pela nova patente em cerimônia realizada em Washington , Flávio Althertum não conseguiu dinheiro para financiar a viagem e a estadia "Eles me convidaram para o Oscar da Ciência americana e eu não tinha dinheiro para pagar a passagem".

O grupo norte-americano Quadrex comprou por US$100 mil (Revista Isto É) os direitos de comercialização do microorganismo, repassando à sua subsidiária, a Bioenergy International, a tarefa de testar e instalar fábricas com base na nova tecnologia.

A Bioenergy quer produzir um combustível menos poluente que a gasolina e concedeu licenças para a produção de etanol a partir de resíduos orgânicos em 40 países. mas o projeto é caro, e em tempos de petróleo barato, acabou sendo deixado de lado.

O diretor técnico do grupo Construcap, Roberto Capobianco, passou um ano nos EUA para negociar com a Bioenergy a implantaçào das técnicas de produção de álcool geradas pela bactéria modificada. As conversas conduziram à implantaçào da filial brasileira da Bioenergy e da Biocap, uma joint venture entre a empresa norte-americana e a Construcap, montada para comercializar os novos processos industriais no Brasil.

Ele explica que durante a pesquisa foi utilizada uma técnica usual de transformação, em que a bactéria é cultivada até que aceite o material genético de outro microorganismo. Mas o trabalho não parou por aí.

Foi preciso um longo e paciente acompanhamento para verificar se o material genético tinha sido realmente incorporado, se os genes se expressavam de maneira eficiente no novo organismo, se a informação perdurava ao longo das multiplicações celulares e, por fim, se o produto formado não se alterava.

Tamanha dedicação valeu a pena. A Escherichia coli depois de modificada, ou recombinada, demonstrou sua eficiência: com 120 gramas de glicose ou lactose por litro e meio de cultura, foram obtidas cerca de 56 gramas de álcool. Os resultados deste acompanhamento foram publicados, em 1989, na revista Applied and Environmental Microbiology.

O primeiro passo, neste método, é transformar o bagaço em hidrolisado (líquido). Depois, este líquido é neutralizado e tratado para eliminar as substâncias tóxicas.

Por fim, adiciona-se a bactéria recombinante e, após cerca de 40 horas, faz-se a destilação: e está pronto o etanol. "A grande vantagem deste processo é utilizar uma matéria-prima que é resíduo, propiciando uma suplementação à produção de álcool de até 15%", destaca o pesquisador.

Os resultados desta experiência vêm reforçar a importância do etanol como combustível, apesar do desestímulo ao Proálcool e da drástica redução da fabricação de veículos movidos exclusivamente a etanol no Brasil.

Fonte:
http://www.fapesp.br/energia.htm

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