27/11/06
- Bebidas fermentadas como o vinho e a cerveja, remontam aos
primórdios da humanidade. No código de Hamurabi
na antiga Babilônia, em 1750 a.c. já se mencionavam
proibições para sacerdotisas frequentarem tavernas.
Durante
séculos a humanidade saboreou suas bebidas fermentadas,
os babilônios com sua cerveja, os gregos com o vinho e
os índios brasileiros com o caiçuma, uma bebida
fermentada a partir do milho. Os Salmos de Davi 103:15 diz "fazes
brotar plantas úteis ao homem, para que da terra ele
tire o pão e o vinho que alegra o coração
do homem".
Os
gregos registram o processo de obtenção da ácqua
ardens. A Água que pega fogo - água ardente, aparece
nos registros do Tratado da Ciência escrito por Plínio,
o velho, que viveu entre os anos 23 e 79 depois de Cristo.
Ele
conta que apanha o vapor da resina de cedro, do bico de uma
chaleira, com um pedaço de lã. Torcendo o tecido
obtem-se o Al kuhu. Foi no século X que Avicena - médico,
astrônomo e filósofo árabe - descobriu o
processo de destilação do material fermentado.
A
destilação produz um líquido composto em
sua maior parte por álcool etílico. A palavra
álcool tem origem árabe "Al Kuhul" que
curiosamente significa fina poeira referindo-se ao sulfeto de
antimônio, cosmético muito usado pelos egípcios.
Posteriormente este termo passou a designar qualquer essência
como o álcool.
Entre
o século X e XII, os alquimistas europeus classificaram
o produto da destilação como "aqua ardens"
literalmente água que pegava fogo. A água que
ardia posteriormente foi obtida com um maior teor alcoólico
e foi chamada de aqua vitae, eau de vie em francês e uisqe
beatha em irlandês. Esta água da vida ou quintessência
era usada pelos médicos como remédio.
Com
o avanço da ciência os químicos classificaram
os álcoois e sua grande família, o álcool
etílico é o composto que nos embriaga. A famosa
reação de fermentação onde a glicose
vira álcool é chamada de reação
de Gay Lussac, famoso químico francês.
Ele
deixou sua marca em cada garrafa pois ao lermos o teor alcoólico
usamos a escala que tem seu nome. Avancemos um pouco no tempo,
estamos no século XVI, período da introdução
da cana de açúcar no Brasil. Nos engenhos de cana,
o que restava da produção de açúcar
era dado aos escravos e aos animais.
Este resíduo era a borra do melaço fermentada,
conhecido como "vinho de cana". Esta borra é
chamada até hoje pelos espanhóis de "cachaza"
ou cagassa em português. Os jesuítas registraram
que a "áugoa ardente" era dada aos escravos.
Bebidas
alcoólicas não eram muito comuns no continente
africano, em função do islamismo ("Ó
vós que credes, o vinho, os jogos de azar, os ídolos
e as flechas da adivinhação são obras repugnantes
do demônio. Evitai-os. E possais prosperar!" Sura
5:90). Os únicos aguardentes existentes eram os de mel
de abelha e sorgo.
A
água ardente vai para as mãos dos Alquimistas
que atribuem a ela propriedades místico-medicinais. Se
transforma em água da vida. A Eau de Vie é receitada
como elixir da longevidade. A aguardente então vai para
da Europa para o Oriente Médio, pela força da
expansão do Império Romano.
São os árabes que descobrem os equipamentos para
a destilação, semelhantes aos que conhecemos hoje.
Êles não usam a palavra Al kuhu e sim Al raga,
originando o nome da mais popular aguardente da Península
Sul da Ásia: Arak.
Uma
aguardente misturada com licores de anis e degustada com água.
A tecnologia de produção espalha-se pelo velho
e novo mundo. Na Itália, o destilado de uva fica conhecido
como Grappa.
Em
terras Germânicas, se destila a partir da cereja, o kirsch.
Na Escócia fica popular o Whisky, destilado da cevada
sacarificada. No extremo Oriente, a aguardente serve para esquentar
o frio das populações que não fabricam
o Vinho de Uva. Na Rússia a Vodka, de centeio.
Na
China e Japão, o Sakê, de arroz. Portugal também
absorve a tecnologia dos árabes e destila a partir do
bagaço de uva, a Bagaceira.
Alguém
teve então a idéia de usar a técnica de
Avicena, nesta época já espalhada pela Europa,
e destilar este resíduo obtendo um destilado com alto
teor alcoólico. Surgia assim a cachaça. No início,
a pinga era usada para amaciar a carne do cachaço (porco).
A origem deste nome é controversa.
Morais
Silva, autor do primeiro grande dicionário de portguues
em 1813 e dono de engenho, relata que quando se fervia a mistura
aparecia um pescoço ou cachaço no tacho. Nas palavras
dele a palavra cachaça vem da "primeira fervura
da cana, que se alteia e toma a forma de um cachaço.
Mas
existe a palavra espanhola "cachaza" e fica-se na
dúvida se foi o cachaço português que influenciou
o espanhol ou vice-versa.
A
palavra teria origem espanhola, segundo o folclorista Câmara
Cascudo. No século XVI em Portugal já se falava
em cachaça, o poeta Sá de Miranda, escrevia para
um amigo em forma de versos: Ri não mordia a graça/eram
iguais os juízes/Não vinha nada da praça/Ali
da vossa cachaça/Ali das vossas perdizes.
Segundo
o jesuíta André João Antonil (1649-1716)
em seu "Cultura e Opulência no Brasil por suas Drogas
e Minas", cachaça era a "...espuma grossa que
se tira das caldeiras na primeira fervura do caldo de cana durante
o processo de evaporação."
O
fato é que a palavra praticamente não foi usada
em Portugal, existindo somente no Brasil para nomear a bebida
destilada obtida do caldo ou melaço da cana-de-açucar
moída.
Datam
de 1516 as primeiras iniciativas oficiais para o estabelecimento
da indústria do açúcar no Brasil, na forma
de "engenhos reais" por ordem de D. Manuel (1469-1521).
No
entanto, somente em 1532, aparecem as primeiras notícias
de engenhos estabelecidos solidamente em terras brasileiras,
sendo o mais famoso deles na Capitania de São Vicente,
próximo a Santos, no litoral paulista.
Num
engenho da Capitania de São Vicente, entre 1532 e 1548,
descobrem o vinho de cana de açúcar - Garapa Azeda,
que fica ao relento em cochos de madeiras para os animais, vinda
dos tachos de rapadura.
É
uma bebida limpa, em comparação com o Cauim -
vinho produzido pelos índios, no qual todos cospem num
enorme caldeirão de barro para ajudar na fermentação
do milho, acredita-se.
Os
Senhores de Engenho passam a servir o tal caldo, denominado
Cagaça, para os escravos. Daí é um pulo
para destilar a Cagaça, nascendo aí a Cachaça.
Os
livros de história são unânimes em afirmar
que o primeiro lugar a produzir aguardente foi a Capitania de
São Vicente, onde hoje fica o estado de São Paulo,
já que lá é onde estava instalado o primeiro
engenho real de cana.Em 1584, Gabriel Soares faz o relato de
que já existiam 8 casas de "cozer mel" como
eram chamados os engenhos que produziam a cachaça, bem
antes dos ingleses iniciarem a produção de rum
no Caribe em um processo assemelhado.
No
alambique quando a temperatura chega a 78 graus o álcool
etílico ferve e se separa da água. O objetivo
é se livrar das partes tóxicas como o metanol
e obter álcool aromatizado. O segredo de uma destilação
perfeita consiste em descartar-se o início e o fim da
destilação chamada respectivamente de cachaça
de cabeça e cachaça de rabo, obtendo o meio que
é a cachaça do coração.
Esta,
com seus diversos compostos como óleos fúseis
é que é a cachaça de boa qualidade, transparente,
ideal para fazer caipirinha, com um teor de álcool alcoólico
acima de 40%.
A
cachaça era fabricada quase em todo lugar onde houvesse
um engenho de açúcar, virou moeda de troca, usada
para comprar escravos na África. A produção
nacional passou até a incomodar o governo português
que viu sua venda de vinho e de seu destilado, a bagaceira,
despencarem.
Tentaram
proibir a produção da cachaça, mas tal
tarefa revelou-se quase impossível. Nos dias úmidos
e frios, o duro trabalho nos canaviais tornava essencial a ingestão
de uma dose da "dengosa".
Era
também excelente lenitivo para cativos adoentados. O
trabalho nas Minas também nao se fazia sem a "branquinha",
que mantinha aquecidos os escravos que ficavam horas mergulhados
nos rios, lidando com as batéias.
Dizia-se
que podiam passar mal-vestidos e mal-alimentados, mas jamais
sem um gole de aguardente. Sua situação de gênero
e primeira necessidade era tão evidente que, em 1720,
na vila de Pitangui, uma revolta quase eclodiu quando o governo
tentou dificultar seu comércio.
Os
primeiros engenhos possuíam quatro níveis para
aproveitar a gravidade na transferência dos diferentes
produtos. No primeiro nível, a cana de açúcar
era recebida e moída em engenho movido com roda de água,
para extração de seu caldo, o qual era transferido
para um segundo nível, mais baixo, onde era cozido em
tachos de cobre para fabricação de melado que,
depois de fermentado em cochos de madeira, era transferido para
o terceiro nível, mais baixo que o segundo, para ser
destilado.
A
cachaça destilada era transferida para o quarto nível,
mais baixo que o terceiro, para ser armazenada em tonéis
de madeira para envelhecimento. O aparelho de destilação,
o alambique, compunha-se de duas peças: a inferior conhecida
como curcúrbita ou caldeira e a superior denominada capitel.
A
primeira era um vaso bojudo de cobre com capacidade de 40 medidas
(104 litros), com uma boca de 70 centímetros de diâmetro.
A segunda peça, o capitel ou capacete, era feito em barro.
de forma esférica inteiriça. na proporção
de um quarto da curcúrbita e ajustada na sua boca. Na
parte lateral do capitel era instalada a serpentina, grosso
tubo de barro afinando para sua extremidade aberta. Sobre a
serpentina e o capitel era lançada água para condensação
da cachaça vaporizada.
As
etapas para fabricação da pinga artesanal essencialmente
são: 1) A cana-de-açúcar é moída
em um equipamento similar àqueles de caldo de cana, vistos
nas feiras livres (quanto mais doce a cana, melhor). 2) A garapa
é levada ao cocho de fermentação, onde
passa uma noite fermentando sem ajuda de produtos químicos.
3) Já fermentada, a garapa chega ao alambique propriamente
dito, onde séra fervida por seis horas, vaporizando,
4) O vapor escoa pelo capelo (parte superior do alambique) até
uma serpentina, 5) Na serpentina, o vapor volta à forma
líquina, já pinga, saindo em uma bica direto para
o barril, onde fica até alcançar o teor alcóolico
de 20 graus. 6) Descartam-se os primeiros e ultimos 10% da destilação
e a cachaça já esta prontar para ser servida e
comercializada.
Se
o tráfico com a África dependia primordialmente
do escambo do tabaco, apoiava-se também na troca da aguardente
brasileira. Tanto assim quem em 1649, quando proibida a fabricação
do "vinho do mel de cana", por atrapalhar o comércio
do vinho português, houve grande reação
de todos os que se beneficiavam do comércio de escravos.
Até
1661, quando o veto foi levantado, a produção
permaneceu estável, contando inclusive com a conivência
daqueles encarregados da admistração colonial.
Debret em seu livro Viagem pitoresca e Histórica ao Brasil
de 1830 ao relatar as doenças a que estavam sujeitos
os escravos relata: "porém, o mais incurável
desse flagelos que grassam entre os escravos masculinos, é
o abuso da aguardente, cachaça.
Essa
bebida, infelizmente de preço módico e com que
se embebedam todos os dias, acaba por torná-los tuberculosos,
ceifando grande parte deles" o que mostra que a bebida
tenha sido motivo para baixa de produtividade dos escravos.
Rugendas,
na mesma época, referindo-se aos moradores do Rio de
Janeiro relata: "sua sobriedade é igualmente notável
em relação à bebida alcoólica, embora
isso se aplique menos as classes inferiores, para as quais na
verdade, os vinhos generosos e a aguardente de cana são
necessários até certo ponto, pois de outro modo,
os alimentos pesados, que constituem sua alimentação
principal, mandioca, milho, feijão e carne seca salgada
lhes seriam nocivos.
Raramente se encontram bêbados, mesmo entre os brasileiros
(brancos nascidos no Brasil) da mais baixa categoria, tais excessos
são mais frequentes entre negros e índios".
Adiante Rugendas mostra os efeitos do álcool: "Em
geral os divertimentos dos negros provocam desordens tanto mais
graves quanto raramente eles tem o espírito livre dos
efeitos do álcool, não somente porque bebem demasiado
mas ainda porque suportam mal a bebida, bastando uma pequena
dose de cachaça, espécie de rum de má qualidade,
para embriagá-los completamente. Imediatamente puxam-se
as facas e os ferimentos graves e assassíneos são
mais do que comuns"
Augusto
de Saint-Hilaire, de junho de 1816 a agosto de 1822, percorrendo
o Brasil do sul, fixado em livros incomparáveis, informava
em 1819 que Cachaça é a aguardente do país.
Apesar do registro vulgarizador, o grande botânico não
hesitou em afirmar: "Não se deva supor, todavia,
que o gosto desses homens pela cachaça os conduza freqüentemente
à embriaguez.
Apresso-me
a dizer, em louvor não só dos goianos, como ainda
dos habitantes do Brasil em geral, que não me lembro
de ter visto, no decurso das minhas longas viagens, um único
homem embriagado" (Viagem às nascentes do rio São
Francisco e pela província de Goiás, 2º,
São Paulo, 1937).
Mais
vivo é o depoimento de George Gardner, de julho de 1836
a junho de 1841 no Brasil, colecionando plantas para os museus
da Inglaterra. Médico, Gardner ficou dois anos no Rio
de Janeiro, passando à Bahia, Recife, Ceará, alcançando
o Piauí, Goiás, Minas Gerais, visitando regiões
inexploradas, motivando o inimitável Travels in the interior
of Brazil, Londres, 1846. Declara: "Vindo do Brasil desembarquei
num domingo de manhã em Liverpool, e vi nesse dia mais
ébrios, no meio das ruas dessa cidade, do que vi, entre
os brasileiros, brancos ou mestiços, durante toda a minha
estada em seu país, que foi de cinco anos".
A
leitura de "História da alimentação
no Brasil" de Câmara Cascudo e "Açúcar"
de Gilberto Freyre sugere que a cachaça sempre foi o
maior "mata-fome" do Brasil, fazendo a população
mais pobre esquecer que o estômago ronca e seguir com
o trabalho.
Rugendas
aponta o uso da aguardente como instrumento para desarticulação
da oposição dos negros à escravidão:
"por toda a parte e com verdadeiro furor, os mercadores
de escravos excitaram os chefes negros...com presentes...promessas
de lucros fabulosos e finalmente empregaram a aguardente, veneno
a que os negros não resistiam nunca"
O
governo português resolveu cobrar taxas sobre a produção.
Os impostos sobre a cachaça ajudaram a reconstruir Lisboa,
abalada por um terremoto em 1756. Altos impostos cobrados pela
coroa portuguesa foi uma das causas de revoltas no Brasil.
Na
Conjuração Mineira a cachaça passou a ser
um dos símbolos. Os inconfidentes valorizavam o produto
nacional e incentivaram o consumo do que até hoje os
portugueses chamam de aguardente da terra. A cachaça,
sendo relativamente barata, tinha conquistado o país.
Em quatro séculos de história ganhou diversos
nomes.
O
novo dicionário Houaiss registra mais de 500 sinônimos
para a cachaça do "abre" à "zuninga".
Embora a elite brasileira tenha por vezes torcido o nariz para
a cachaça ela tornou-se a bebida nacional, a cara do
Brasil.
No
século 19, sua produção e consumo já
estavam tão disseminado e identificados com a terra que
a cachaça tornou-se, então sinônimo de brasilidade.
Na Revolução Pernambucana de 1817, bem como nas
lutas de Independência, brindar com vinho ou outra bebida
significava alinhar-se com o lado português.
A
situação tornou-se tão extrema que, em
certos lugares, não beber era considerado pouco patriótico.
Nas guerras Cisplatina, do Paraguai e de Canudos, recomendava-se
a ingestão de "januária"com pólvora,
um santo remédio para a falta de coragem.
Observou
o citado Câmara Cascudo, em todo o norte do Brasil, um
interessante rito da cachaça, que assim nos descreve:
Tendo na mão o copo, feita a vênia do estilo, o
primeiro bebedor derrama um pouco do líquido no chão,
antes do primeiro gole, nunca aliás bebido por quem oferece
o trago e sim pelo homenageado, quando só há um
copo para os dois amigos.
Perquirindo a origem do costume o ilustre rio-grandense-do-norte
foi encontrá-la na libatio romana, cerimônia pagã
que consistia em derramar no fogo ou no solo o vinho que sobrava
das libações.
A
"moça-branca" não ficaria de fora de
um dos aspectos mais importantes da vida do brasileiro: a religião.
No Candomblé sua presença e constante, especialmente
nos despachos. O catolicismo não foi menos influenciado
pela "pindaiba".
O folclorista Melo Morais Filho registrou sua presença
em um auto do ciclo de Natal, chamado "Baile da Aguardente".
São Benedito era catado nas trovas populares com o "santo
preto, que bebe cachaça e ronca no peito". Mas a
cachaça era usada como remédio também.
Quando a medicina sequer podia ser considerada uma ciência
já existiam elixires que em sua grande parte eram alcoólicos.
Até
hoje no interior do Brasil é comum tomar-se pinga com
limão e mel. Um saudável remédio para gripes
e resfriados. A aguardente tornava-se novamente a áqua
da vida dos alquimistas. Hoje, séculos depois, a cachaça
é a segunda bebida mais consumida no País, perdendo
apenas para a cerveja, que no ano passado despejou mais de 9,7
bilhões de litros nos copos dos brasileiros, contra 1,3
bilhão de litros da aguardente.
Uma
boa cachaça é definida no processo de fermentação,
pois é nele que são formados todos os compostos.
De nada adianta o cuidado nas outras etapas da produção,
se houver descuido durante a fermentação.
Os
produtores costumam adicionar fubá de milho, farelo de
soja, querela de arroz, entre outros, ao caldo de cana na preparação
de receitas próprias do fermento iniciador, também
chamado de pé-de-cuba. Segundo o pesquisador Carlos Rosa
da UFMG, a maioria dos produtores acredita que o segredo está
na mistura, que fermenta de cinco a 20 dias.
Mas,
na realidade, pouco importa o que vai ser adicionado ao caldo
de cana, pelo menos em relação ao desenvolvimento
dos microorganismos presentes no ambiente. "Os grãos
não são fonte de nutrientes para o levedo, possivelmente,
apenas servem de suporte para a sua proliferação
e ajudam na decantação", explica Carlos Rosa.
Se o processo foi conduzido com higiene e o tempo de fermentação
foi respeitado, o sucesso nessa etapa é certo.
Ao
final do período de preparação do pé-de-cuba,
ocorre o predomínio da levedura Saccharomyces cerevisiae.
Por ser um fungo altamente adaptado ao álcool, o S. cerevisiae
quase sempre domina a fermentação de bebidas alcoólicas.
Entretanto, muitas linhagens diferentes dessa mesma levedura
podem conduzir o processo. Isso significa que a cachaça
apresenta variações de qualidade ao longo da safra,
que, em Minas, vai de maio a novembro.
Sem
ter como avaliar, os produtores costumam misturar toda a cachaça
produzida ao longo de cada safra, correndo o risco de misturar
uma excelente pinga com uma de pior qualidade. O resultado final
é uma cachaça mediana.
Infelizmente
a originalidade de nossa cachaça é ameaçada
pelo rum, primo da cachaça pois é também
fabricado a partir da destilação da cana de açúcar.
O rum branco, destilado do mosto de cana fermentado sai do alambique
com mais de 80% de teor alcoólico tendo seu teor alcoólico
diluído para cerca de 40%.
A
matéria prima é parecida mas o processo gera um
produto diferente. Esta semelhança faz com que diversos
dicionários e artigos na imprensa mundo afora ignorem
a cachaça por achá-la semelhante ao rum. Nós
brasileiros temos parte da culpa pois por vezes chamamos fazemos
caipirinha com vodka ou mesmo com o concorrente rum.
De
acordo com o sistema de designação da Organização
Mundial das Alfandegas (OMA) na categoria bebidas, a cachaça
não tem uma classificação única,
como o uísque, vodka, etc, sendo classificada no grupos
"outros destilados alcoólicos".
Os
produtores brasileiros ainda precisam cumprir algumas etapas
para definir a palavra cachaça como designação
de um produto típico do Brasil e produzido exclusivamente
em território nacional, para destacá-la no mercado
internacional. Em primeiro lugar, o INPI conseguiu junto ao
INPI francês que se anulasse o registro de marca cachaça
indevidamente concedido na França por terceiros.
O
presidente Fernado Henrique Cardoso assinou na primeira semana
de 2002 o decreto 4072 que estabelece que "cachaça
é a denominação típica e exclusiva
da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação
alcóolica de 38% a 48% em volume a 20 graus Celsius e
com características sensoriais peculiares" alterando
assim o decreto 2314/97 da Lei de Bebidas 8918 de 14.07.94.
Com
os recentes decretos presidenciais (incluindo o decreto 4062
de dezembro de 2001, que assegura o uso do termo cachaça
apenas para a aguardente nacional) o quadro da identificação
da cachaça como rum pode ser finalmente revertido, com
o aval da OMPI: "a pinga é feita a partir do caldo
da cana, enquanto o rum utiliza o melaço.
Existem
diferenças culturais, químicas e sensoriais entre
as bebidas" , argumenta a presidente do Programa Brasileiro
de Desenvolvimento da Aguardente de Cana (PBDAC), Maria das
Vitórias Cavalcanti. O próximo passo é
obter junto ao INPI o registro de indicaçào geográfica,
um atestado de procedência e qualidade e finalmente modificar
a classificação da OMA.
Pelo
DECRETO Nº 4.851, DE 2 DE OUTUBRO DE 2003, Art. 92, do
governo Lula, "Cachaça é a denominação
típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no
Brasil, com graduação alcoólica de trinta
e oito a quarenta e oito por cento em volume, a vinte graus
Celsius, obtida pela destilação do mosto fermentado
de cana-de-açúcar com características sensoriais
peculiares, podendo ser adicionada de açúcares
até seis gramas por litro, expressos em sacarose.
§
1o A cachaça que contiver açúcares em quantidade
superior a seis e inferior a trinta gramas por litro será
denominada cachaça adoçada. § 2o Será
denominada de cachaça envelhecida, a bebida que contiver
no mínimo cinqüenta por cento de aguardente de cana
envelhecida, por um período não inferior a um
ano, podendo ser adicionada de caramelo para a correção
da cor. § 3o O coeficiente de congêneres da cachaça
não poderá ser inferior a duzentos miligramas
por cem mililitros de álcool anidro."
Nos
últimos sete anos, as exportações cresceram
quase 100%, de 5,6 milhões de litros em 1995 para 11,1
milhões de litros em 2001. Em dólares, foi um
salto de US$ 5,6 milhões para US$ 9 milhões. Em
termos absolutos, estes não chegam a ser números
expressivos.
Apenas para comparar, só de suco de laranja o Brasil
exportou, no ano passado, US$ 812 milhões. Mas indicam
a existência de um mercado externo não atendido.
O principal mercado consumidor da cachaça brasileira
é a Europa, que, em 2000, consumiu quase metade (49%)
das exportações. A Alemanha responde, sozinha,
por 30% (US$ 2 milhões) do total exportado.
Se
na Alemanha a cachaça se vai consolidando, em outros
mercados de grande potencial as vendas continuam engatinhando.
Os Estados Unidos, que consomem anualmente 495 milhões
de litros de destilados brancos - gim, vodka e tequila -, respondem
por apenas 4% das exportações brasileiras de cachaça.
Parte
desse baixo desempenho no mercado norte-americano se explica
pelo fato de que, nos Estados Unidos, a cachaça passou
a ser considerada rum. Primeiro, porque, classificada como rum,
a cachaça é tributada em US$ 0,19 por litro exportado.
Se integrasse a lista dos "outros destilados", como
ocorria antes de 2000, a cachaça seria isenta de tributação.
O
segundo motivo é que essa classificação
dificulta sua disseminação no mercado norte-americano,
porque impede campanhas de divulgação que dêem
à cachaça uma imagem ligada ao Brasil.
Fonte:
http://www.umacoisaeoutra.com.br/viagem/caipirinha.htm
http://www.caipirinha.com.br/informacoes.html
http://www.cachaca.com.br/hist.htm
http://www.uol.com.br/facilnordeste/facil23/especial_cachaca.html
http://www.mdic.gov.br/imprensa/doc/informativo18.pdf
http://www.tanamesa.com.br/rio/tnm_news/colunas/cachaca/index_151200.htm
http://www.armazemvieira.com.br/aguardente.php3
http://www.jangadabrasil.com.br/marco/cp70300b.htm
http://www.jangadabrasil.com.br/marco/al703000.htm
http://revista.fapemig.br/7/cachaca.html
http://terra.com.br/istoe/1689/comportamento/1689_malvada_e_nossa.htm
http://www.jt.estadao.com.br/colunistas/ming/2002/06/ming020623.html
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