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Sergio
Kokis - ‘’Viver em Montreal é a perfeição
para um intelectual’’
Entrevistar
Sergio Kokis é contagiar-se pela inspiração em uma
viagem reflexiva de intolerável lucidez. É como participar
de um processo de tortura consigo mesmo à exaustão. Kokis
faz parte de uma leva de autores que maneja uma coerência de tal
grandeza em seus pensamentos que suscita após a leitura de cada
obra a consciência da irracionalidade contemporânea.
Cada
brasileiro leva consigo sua história não importa onde ele
desembarca mas ao contrário dos quebequenses soberanistas que fazem
questão de declarar ‘’je me souviens’’
(eu me lembro) a conclusão é que os brasileiros cultuam
a frase ‘’eu esqueci’’. Kokis se declarou não
soberanista, mas é dentro deste contraste de idéias que
iniciamos a entrevista.
Ele
afirmou que todo intelectual tem por obrigação fazer perguntas
que ninguém ousa fazer e a que ninguém quer responder. ‘'A
liberdade é um mito, eu daria a minha liberdade para que as crianças
no Brasil tivessem a possibilidade de terem uma educação
decente e um copo de leite e não o que acontece impunemente perante
a indiferença desses mesmos intelectuais e responsáveis
políticos: são mortos na rua, sem dó nem piedade
por gente paga. É esta a liberdade que os intelectuais reclamam?’’
Romancista
e pintor, nasceu no Rio de Janeiro em 6 de maio de 1944 e veio a residir
posteriormente em Montreal. Inserido na trajetória natural que
amarga os exilados, ao mesmo tempo, seus olhos refletem algo como ter
alcançado a paz eterna em vida, embora ele seja duro e crítico
a um Brasil dos anos sessenta, reflito sobre a ditadura política
e ideológica da qual ele foi expulso em relação aos
dias atuais no qual vejo os brasileiros, e são muitos os que me
escrevem, incontáveis e-mails de pessoas que querem fugir de uma
situação econômica não menos ditatorial, de
uma sociedade corrupta, violenta e sem esperança de um futuro melhor.
É
uma auto-expulsão, nós nos sentimos expulsos também,
quem de nós, que esta aqui, não tem este sentimento? E ele
completa ’’no Brasil se voce tem pai rico, você pode
ser um imbecil que você vai ter sucesso rápido, isto não
quer dizer que o Brasil é feito de imbecis, mas que o trabalhador
o homem simples que tem que trabalhar para estudar, o caminho será
longo e talvez nunca chegue’’.
Sergio
Kokis foi denunciado pela própria direção do partido
comunista, ‘’alguém tinha que ser denuciado, os que
tinham dinheiro se safaram os que tinham pai rico também, foram
fazer mestrado na Europa, e o trabalhadores, os pobres como eu da base
do partido que se danem, então é isso, a minha decepção
começa no próprio partido comunista do qual eu era integrante’’.
Seu
primeiro livro, publicado em 1994, «Le Pavillon des Miroirs»,
ganhou o Prêmio da Academia de Letras do Quebec, o Grande Prêmio
do Livro de Montreal (1994), bem como o Prêmio Quebec-Paris e o
Prêmio Desjardins do Salão do Livro de Quebec (1995). A tradução
desta obra para o português foi publicada pela Editora Record, no
Brasil. Considerado um dos mais importantes escritores do Canadá,
Kokis utiliza o francês para produzir obras nas quais discute o
desenraizamento do homem moderno, a solidão e o lugar do artista
na sociedade atual. Além de A casa dos espelhos, é autor
de mais 13 livros, entre romances e ensaios sobre estética, traduzidos
para o inglês, o alemão e o espanhol
Viver
em Montreal
Para
Kokis é a perfeição para um intelectual. ‘’Há
um verão, uma primavera e um outono maravilhoso, um inverno fortíssimo.
Pode-se desfrutar da paz o tempo todo, há a possibilidade de trabalhar
em paz, tranquilamente, e se uma pessoa gosta de andar, de passear tem-se
as florestas e tal, é seguro, não tem nenhum problema...e
as pessoas do Quebec, do Canada quando vêem um miserável
na rua eles ajudam, quando alguém cai na rua eles ajudam em vez
de ir buscar a carteira da pessoa como acontece no Brasil. Aqui ha uma
solidariedade humana e eu me sinto bem vivendo em uma sociedade onde há
esse sentimento. Gostaria que ela existisse para todos os brasileiros,
mas para isso teria que haver uma revolução la e que matasse
a metade da população.
A
paixão
‘’A
paixão é coisa do passado’’.
O
prazer de escrever
É
o prazer da criação intelectual, eu tenho mais prazer em
escrever do que olhar os filmes na televisão, eu não olho
a televisão, não vou ao teatro, não vou ao cinema,
porque o que se passa na minha cabeça é muito mais excitante
como quando eu estou escrevendo um livro como agora eu estou terminado
um livro, com o que se passa é muito mais excitante é muito
mais vivo também, mais autentico, muito mais realista. Eu às
vezes paro de escrever porque estou com muita raiva com o que esta acontecendo,
então eu paro porque as lagrimas estão caindo, eu estou
chorando, eu estou emocionado com o que estou vendo, é melhor do
que ver, isso não me acontece nunca no cinema.
A
inspiração
Eu
não sei, ela vem eu não sei de onde, vem talvez do álcool,
eu bebo bastante….eu sou um grande bebedor e fumador também,
eu fumo muito e o tabaco para mim é a fonte essencial da criatividade,
sem o tabaco não ha criatividade, não há amor, não
há sexo , não há nada.
A
leitura
É
o que eu faço quando não estou escrevendo, é ler,
todo o resto do tempo eu leio.
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