
![]() |
Volume II - N.9 Setembro de 2005 A TRAGÉDIA DE NOVA ORLEANS FOI PIOR DO QUE O TSUNAMI
Tragédia é tragédia, não comporta adjetivos complementares. Tenham morrido poucos, como no ataque terrorista de Londres, ou muitos, como aconteceu durante as agressões terroristas na Espanha e nos Estados Unidos, ou ainda milhares, como no inacreditável corre-corre ocorrido recentemente no Iraque, o fato é que basta uma vida ceifada - num sinistro natural ou provocado, isso não importa -, para caracterizar uma tragédia, um acontecimento que desperta lástima ou horror. No caso da cidade de Nova Orleans as imagens ainda estão vivas na nossa memória: o estádio de esportes repleto de gente – único refúgio possível dos que previam o esperado furacão -; as cenas da destruição física provocada pelo Katrina: as casas destruídas, os carros e barcos amontoados, os milhares de habitantes sem terem para onde ir, as crianças e idosos passando fome e sede... a cidade inteira - milhões de pessoas! - sem luz, combustível ou água potável. Tudo realmente um horror nunca antes visto.... nos Estados Unidos!. Nos Estados Unidos? Esse tipo de tragédia a gente está acostumado a ver em países da Ásia, África e da América do Sul e não no maior país do mundo, o mais importante, o mais rico, a nação dos super-heróis, dos exércitos invencíveis, dos astronautas e das mais modernas naves espaciais. O que mais surpreendente nesse episódio foi o (falta de) socorro aos desabrigados. Esperava-se mais – muito mais – da grande nação norteamericana. Tinha-se como certo que o socorro às vitimas seria rápido, eficiente, com grande mobilidade popular. Arrecadação até em excesso de comidas, águas, roupas e milhões em donativos em dinheiro, e, claro, assistência médica instantânea e resgate de desabrigados. Como aconteceu no caso das torres gêmeas de Nova Iorque. Mas não foi o que se viu. O presidente Bush – talvez por considerar os habitantes de Nova Orleans menos importantes dos que os de Nova Iorque (porque eles eram, em sua maioria, negros e pobres), ou simplesmente por estar mais preocupado com a ocupação militar no Iraque, ignorou o acontecimento. O governo da nação mais poderosa do mundo deixou as vítimas do Katrina à sua própria sorte, desabrigadas, morrendo (literalmente) em conseqüência de ferimentos ou de fome e de sede. A cidade à sanha de bandos de vândalos saqueando as casas e lojas impunemente (quem viu o filme ‘Bandos de Nova Iorque' sabe do que estou falando). Mulheres, homens e crianças lutando uns com os outros, dentro do estádio, disputando a tapas um pedaço de pão ou um copo d'água. Muitos doentes morrendo por falta de atendimento médico ou de remédio. Mortos vitimas do furacão deixados em qualquer lugar, no meio dos escombros e das ruas, provocando um cheiro insuportável em toda a cidade. Enfim, uma absoluta falta de atenção por parte dos governos locais, o que comoveu até nações como a Venezuela e Cuba, que, mesmo sendo países pobres, liberaram recursos financeiros para ajudar os habitantes dos país rico. E o governo do presidente Bush quieto, alheio ao sofrimento do seu próprio povo, só resolveu agir depois de alertado pelas pesquisas de opinião, que mostravam a sua popularidade caindo até atingir o menor índice de aprovação até agora. E reagiu como? Claro, à moda do capitalismo: pedindo uma enorme verba ao Congresso (US$ 10 bi) para socorrer a cidade. Como se isso o absolvesse da inatividade imediata diante da tragédia. O sistema neoliberal só entende a língua do dinheiro mesmo, nenhuma outra. Acha que tudo pode ser resolvido com dinheiro: basta pagar indenizações ou reconstruir os imóveis, que o povo de Nova Orleans ficará feliz novamente, mesmo que tenham perdido filhos e parentes próximos. Mesmo que tenham sofrido os horrores de uma vida sem lei e sem ordem. Mesmo que tenham passado enormes privações morais. É assim mesmo que pensam os neoliberais, esses mesmos que transformaram o mundo - e o Brasil também, é claro – apenas em um negócio regido pela lei da oferta e da procura, cujos únicos valores são o lucro e a riqueza. Alheios portanto, a sentimentos como ética e moral. Um mundo sem responsabilidade e solidariedade. Bárbaro ainda. Devido a esse descaso do governo norte americano, pode-se afirmar que realmente a tragédia de Nova Orleans foi mais devastadora do que o Tsunami, porque devastou também o que restava de decência na administração pública dos EUA. Que pena!
(*) o autor é jornalista em Itapetininga/SP
|