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Dr. Ari Zekcer
23/11/07
- CIÊNCIA
& TECNOLOGIA, ESPORTE, MEDICINA & SAÚDE
O
futebol de final de semana é praticamente uma instituição
no Brasil. Aliás, é tão institucionalizado
que movimenta um lucrativo mercado. Há no País
um número considerável de locais nos quais
campeonatos de futebol de campo ou de salão amadores
são formados por grupos de amigos. Nada mais normal.
O que há de mal em eliminar o estresse de uma semana
inteira com uma partida – ou para os que preferirem,
a famosa “pelada” – no domingão?
Quando organizado com os amigos do trabalho então,
o jogo do horário de folga acaba virando assunto
do expediente e ajuda até a melhorar o relacionamento
na equipe.
Visto por esse ângulo o futebol cumpre uma função
de suma importância em nossa comunidade. Além
de melhorar as relações sociais, contribui
com o desempenho físico de seus praticantes por se
tratar de um esporte saudável e muito cultuado. Porém,
há de se observar dois importantes aspectos que,
quando ignorados, tendem a transformar o lazer em dor de
cabeça.
O primeiro deles tem a ver diretamente com a preparação
física. Não raro, muitos dos praticantes vão
ao trabalho de carro ou transporte coletivo durante a semana,
passam o tempo inteiro sentados e realizam pouca ou nenhuma
atividade física nos dias úteis. Quando chega
o final de semana, querem “tirar o atraso”.
Com isso, “forçam” os músculos
a suportar uma carga de atividade para a qual não
estão preparados. Aí acontecem lesões
que podem tirar o atleta de vez dos campos ou quadras.
Outro aspecto é que, em muitas dessas reuniões,
o futebol vem seguido do churrasco e da cerveja. O grande
problema é que muitos, quando entram para jogar,
já ingeriram certa quantidade de bebida alcoólica.
E isso é muito grave. O álcool prejudica em
muito a percepção espacial e os reflexos das
pessoas. Assim como na direção de automóveis,
as conseqüências da relação do
álcool com o esporte podem ser extremamente desagradáveis.
Ainda mais quando entre os participantes há aquele
sujeito que, embora amigo de todos, sempre entra em campo
como se disputasse uma final de copa do mundo no Maracanã
(imagine quanta gente está antecipando a Copa de
2014 nesse momento!). Esse tende a ser um dos mais “perigosos”
adversários. Ele não vai pensar duas vezes
em usar os populares artifícios das “botinadas”
e “encontrões” para impedir um gol. Sua
filosofia no futebol geralmente é de que “se
a bola passar, o jogador não passa!”. E se
o jogador estiver sob o efeito do álcool, coitado
dele!
Só para se ter uma idéia, um estudo da Universidade
de Minnesota (Minneapolis, E.U.A) realizado com jogadores
de futebol profissionais federados à National
Collegiate Athletic Association (NCAA) indicou que
o contato entre os atletas – o famoso “encontrão”,
citado à pouco – representa o principal mecanismo
de lesão durante o jogo. O mesmo levantamento apontou
que mais de dois terços das lesões no futebol
masculino ocorrem nos membros inferiores, principalmente
tornozelo e joelhos.
Há
também uma série de estudos científicos
realizados por centros de referência em diversos países
que comprovam que a incidência de lesões no
futebol pode ser reduzida por meio de programas de prevenção.
Até a própria Federação Internacional
de Futebol (FIFA) lançou o seu. Batizado como “Os
11” e desenvolvido pelo centro médico da instituição,
o F-MARC, em cooperação com especialistas
internacionais, o programa compreende dez exercícios
práticos e um que promove a boa prática esportiva,
o famoso “fair play”.
O programa é de fácil memorização
e deve ser realizado sempre após aquecimento e alongamento.
Os exercícios visam o fortalecimento de vários
grupos musculares, melhora da coordenação,
equilíbrio e técnica e potência de salto.
Para quem tiver curiosidade, o material está disponibilizado
para download no site www.fifa.com/flash/the11/Booklet.pdf.
Vale considerar, porém que, embora contribua muito,
o programa não é a resposta para todos os
males. Ele foi desenvolvido para jogadores profissionais
que contam com o suporte técnico dos times para os
quais jogam. Toda atividade física deve ser feita
sob a orientação de profissionais especializados
e precedidos de uma avaliação física
minuciosa.
Para quem não tem muito tempo para exercícios
durante a semana, fica a dica de “separar” 15
ou 20 minutos diários para seções de
aquecimento e alongamento. Essa prática já
contribui muito para que, no final de semana, seus músculos
não sintam excesso pela carga de atividade que lhes
será imposta e não lhe cobrem com a dor resultante
disto.
Também vale considerar que é muito relevante
fazer com que cada participante do jogo – sobretudo
o amigo “artilheiro” que citamos – tome
conhecimento do 11º item do programa da FIFA, indicado
“...para o bem do jogo e saúde dos atletas”.
Afinal, como diz o próprio documento: “a maioria
das lesões no futebol é causada por faltas,
tanto que a observância às Regras do Jogo e,
especialmente, o Jogo Limpo (“Fair Play”)
é essencial para prevenir lesões”.
*O
ortopedista Ari Zekcer é especialista em medicina
desportiva e cirurgia de joelho pela EPM – UNIFESP,
diretor da Zekcer Sports Medicine, coordenador da equipe
de ortopedia do Hospital São Luiz (SP), membro efetivo
de entidades como Sociedade Brasileira de Cirurgia de Joelho
(SBCJ), Sociedade Paulista de Medicina Desportiva (SPAMDE)
e International Society of Atrhroscopy, Knee Surgery and
Orthopaedic Sports Medicine (ISAKOS). Mais informações:
www.arizekcer.com.br