14/11/06
- Prisioneira ganha bolo de aniversário,está em
busca das contas da famíliana Suíça e pode
sair da cadeia emdois anos, com 10 milhões de euros
Por Alan Rodrigues
Naquela manhã ensolarada de sábado, 4 de novembro,
era mais um dia de visita na Penitenciária Feminina de
Ribeirão Preto. Dezenas de pessoas se aglomeravam na
entrada do presídio. Com um bolo de chocolate nas mãos,
encimado pelo número 23 escrito em letras de glacê,
o advogado Denivaldo Barni rompeu as grades de aço das
celas da área de segurança e abriu um sorriso
diante da prisioneira mais famosa do Brasil.
Cumpria-se, naquele
momento, o 105º dia da pena de 39 anos e seis meses de
reclusão a que Suzane Louise von Richthofen - a aniversariante
do dia - foi condenada pelo assassinato dos pais. As notícias,
porém, eram boas: na matemática da Justiça,
Suzane, com seus tenros 23 anos de idade, ganhará a liberdade
em mais dois.
O largo sorriso
de Suzane durante a pequena festa pode ter, ainda, outra razão
de ser. Ela, que havia acabado de limpar o "seguro",
como sua cela é chamada pelas outras 347 detentas, pode
se tornar uma milionária. Promotores públicos
desconfiam que estão no nome dela duas bem fornidas contas
num banco suíço. Uma denúncia anônima
encaminhada aos Ministérios Públicos federal e
estadual dá como certo que as contas 15.616 e 15.6161,
abertas em 1988, no Discount Bank and Trust Company (DBTC),
atual Union Bancaire Privée, pertencem a família
Richthofen.
Estima-se que
essas contas abriguem pelo menos dez milhões de euros,
dinheiro supostamente desviado das obras do Trecho Oeste do
Rodoanel - uma estrada que circunda a cidade de São Paulo,
orçada em R$ 339 milhões, mas que acabou consumindo
mais de R$ 1 bilhão dos cofres públicos. A construção
do trecho foi administrada pela autarquia Companhia de Desenvolvimento
Rodoviário S.A. (Dersa), empresa da qual o pai de Suzane,
Manfred von Richthofen, era diretor quando foi assassinado.
Os promotores
desconfiam que essas contas estejam em nome de Suzane. Se essa
impressão se confirmar,acreditam que a condenada tem
boas chances, uma vez em liberdade, de manter seus direitos
sobre elas - e a fortuna nelas guardada.
Além dos
números das contas suíças, o documento
encaminhado aos MPs detalha outras instituições
financeiras com as quais Manfred operava. Segundo a denúncia,
parte do dinheiro passava pela agência da avenida Paulista
do Citibank, na conta 00031025587, e de lá migrava para
fundos de investimentos da própria instituição.
Outras duas contas
correntes, ambas na Nossa Caixa, teriam recebido aportes consideráveis
pouco antes da morte de Manfred. E mais: os promotores suspeitam
que a viagem que o casal Richthofen fez à Suiça,
um mês antes de morrer, foi exatamente para tratar das
finanças aportadas no Exterior. Ainda segundo a denúncia,
Manfred usou a documentação de sua filha para
lavar esses milhões de reais. Ou seja, tecnicamente ela
é dona do dinheiro.
Os promotores,
é claro, estão prontos para inquirir Suzane sobre
o assunto. Nos próximos dias, tanto ela como os irmãos
Daniel e Christian Cravinhos, que executaram os crimes, serão
chamados para contar o que sabem. Logo após os assassinatos,
Daniel, então namorado de Suzane, chegou a falar no inquérito
policial sobre essas possíveis contas de Manfred no Exterior.
Ele acrescentou que Suzane fora levada pelo pai a assinar vários
documentos bancários sem saber, precisamente, a finalidade.
Na bolsa de apostas
internas na Dersa e nos corredores da Assembléia Legislativa
de São Paulo, onde um pedido de CPI para investigar o
caso foi abortado, os palpites para o suposto superfaturamento
do Rodoanel chegam às cifras dos R$ 100 milhões.
A obra, que a denúncia anônima aponta como sendo
a torneira dos euros nas contas dos Richthofen, foi condenada
pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que a julgou
irregular.
Os promotores
já sabem que Manfred era reconhecido na Dersa como um
expert em operações financeiras. A denúncia
sobre a existência das contas no Exterior já fora
feita anteriormente, três anos atrás. Na ocasião,
os promotores estaduais arquivaram o processo que fora aberto.
Desta vez, porém, eles acreditam que a história
se tornou mais crível, devido às qualidades dos
documentos apresentados.
Extremamente
meticuloso, num texto de seis páginas, o denunciante
expõe quem é quem no suposto esquema mafioso traçado
por Manfred. Apresentam-se endereços e CPFs e, nas duas
últimas páginas da carta, uma detalhada relação
das propriedades da família Richthofen, as contas bancárias
no Brasil e no Exterior, além dos comprovantes de empresas
de Manfred que ainda estão na ativa. "Aparecem na
nova denúncia vários nomes, números de
contas e até empresas de Manfred com dados de seus sócios
que nós não conhecíamos", disse a
ISTOÉ um representante do MP.
As possíveis
testemunhas já começaram a ser ouvidas. Uma semana
antes de comemorar o aniversário de Suzane, o advogado
teve de comparecer diante do promotor da cidadania Eduardo Rheingantz
para falar sobre o assunto. Barni, além de ser ex-tutor
de Suzane, é procurador da Dersa. "Seu depoimento
foi muito bom", limita-se a dizer o promotor Rheingantz.
O processo corre em segredo de Justiça.
Rica, poliglota
- fala inglês, francês e alemão com fluência
- e vaidosa, Suzane foi criada numa mansão em uma área
nobre da cidade de São Paulo. Hoje, na Penitenciária
de Ribeirão Preto, ela vive em silêncio boa parte
do dia. Em muitos momentos, dedica-se a uma compulsiva leitura
da Bíblia e mantém contato com o mundo externo
através de um pequeno aparelho televisor.
Sua cela é
dividida com outras duas detentas, acusadas de ser advogadas
da organização criminosa PCC. Mesmo responsabilizada
pela morte do pai e da mãe, Suzane trava uma briga judicial
com o irmão Andreas pelos R$ 2 milhões de patrimônio
oficial deixado por Manfred. Andreas já recebeu R$ 300
mil pelo seguro de vida do pai - e também a parte desse
dinheiro Suzane considera ter direito.
O rapaz tenta
se recuperar da perda debruçando-se sobre os livros,
dizem os amigos. Andreas, 19 anos, é estudante de farmácia
na USP. Ele carrega uma dúvida, que tem a ver com o homem
que levou o bolo de chocolate para sua irmã. "Se
esse Barni era realmente amigo de meu pai, como eu nunca ouvira
falar dele antes do crime?", costuma perguntar a seus colegas.
O irmão define a relação de Suzane com
o ex-tutor como "estranha".
REVISTA ISTOÉ
15/11/2006
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