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27/06/07
- "Se o homem soubesse o valor que tem a mulher
andaria de quatro à sua procura".
Onde
você colocaria uma vírgula?
Proponho
que, antes de ler o artigo, você encontre sua resposta.
Agora
conto qual foi a minha, ao achar essa frase na revista Língua
Portuguesa : fui logo tascando uma vírgula depois
de mulher. Daí tomei conhecimento de que a resposta
varia de acordo com o sexo de cada um. Para fazer um teste,
pedi a um grande amigo, muito macho, sim, senhor, que me
dissesse onde ele colocaria uma vírgula. Ao que ele
responde : « Existem duas opções. Para
homens como eu, que sou bonito e reconheço o valor
que tem a mulher, a vírgula fica depois da palavra
tem. Para os mequetrefes, a vírgula fica depois da
palavra mulher ».
Ele
falou dos mequetrefes homens, acredito eu, de forma que
não me senti atingida. De mais a mais, trata-se de
um substantivo masculino, embora mulheres mequetrefes também
existam aos montes. Fui procurar, por via das dúvidas
e de uma consulta ao Aurélio, a origem de mequetrefe.
Não achei de pronto.
Com
uma boa googleada, descobri que nosso mequetrefe pode ser
filho de mogatref, palabra árabe que designa pessoas
petulantes. É mesmo: só grandes mequetrefes,
cheios de empáfia e vazios de sabedoria, precisam
ficar botando banca. Disse o Aurélio - não
o dicionário, mas o lexicógrafo, que embora
esteja longe de ser mequetrefe, sabe entendê-los :
« os burros ficam danados quando se descobre uma besteira
deles ». Mas há mequetrefes e mequetrefes.
Temos três sub-espècies catalogadas no Houaiss,
que permito-me comentar :
1
- indivíduo intrometido, dado a meter-se no que não
é de sua conta; enxerido. Lembremos do que diz Sartre
do intelectual, aquele que se mete com o que não
lhe diz respeito. Talvez seja preciso ser um pouco mequetrefe
para interagir com o mundo e refletir sobre ele
2
- indivíduo de caráter duvidoso; patife, mariola,
biltre. Nessa acepção não é
nada interessante ser considerado - ou ainda pior, agir,
de fato - como um mequetrefe.
3
- indivíduo sem importância, inútil,
insignificante; borra-botas, joão-ninguém.
Convenhamos : num mundo em que Britney Spears é alguém
importante, ser mequetrefe até que é uma saída
honrosa. Nessa categoria entra a versão de origem
inglesa : make-trifles, 'o que faz bagatelas'.
Agora
é cruzar os dedos para não topar com aquele
ser que reúne todas as características acima
(falta de simancol, ausência total ou parcial de caráter
e incapacidade de se fazer útil), torcendo para que
não seja o síndico do seu prédio, um
colega de trabalho no seu departamento, sua sogra, enfim,
gente que se aproxima para nos ensinar a arte da paciência
ou para nos estimular no treino de artes marciais.
No
momento em que pus-me a escrever essas mal-catadas linhas,
um amigo meu fez uma prospecção mais séria;
foi almoçar com Mauro Villar, co-autor do dicionário
Houaiss e craque no ramo da lexicografia. Confirmou que
a origem da palavra é controversa. Se há autores
que consideram o vocábulo uma herança do espanhol
mequetrefe, 'sujeito metido, buliçoso, de pouco proveito',
há quem encontre a palavra nascendo nos idos do século
XVII, originada de meco, homem libertino, malicioso, astuto
e espertalhão, e trefe
(ou trefo. trêfego), que significaria travesso.
Verdade : é uma mistura de safado, sem-vergonha,
patife, xinfrim e, como se não bastasse, cara-de-pau.
Esse segundo tipo, mistura de meco e trefe, sabe se assumir
e, acho eu, merece compaixão. Tentando se virar como
pode, esse é o mequetrefe sobrevivente. É
a ralé que quer se sobressair criando soluções
clandestinas, burlando a genialidade de quem aspira, sinceramente,
a perfeição. Em terra de cegos, mequetrefe
assim adora esses ditados. E tira partido tão
despudoradamente que não é raro virar sucesso.
Na
literatura mundial, mequetrefe debuta em 1625. No Brasil,
acaba virando mais um apelido do Capiroto, do Fute, do Azarape,
do Cafuçu, do Canhoto, do Ferrabraz, do Imundo, do
Pé-de-pato,do Rabudo, do Tinhoso, enfim. O Criador,
que só chamam assim quando as coisas vão mesmo
muito mal, decidiu soprar-nos que a palavra só existiria
como adjetivo. E por isso não sei como falar de quem
não sabe assumir sua mequetrefagem, sua mequetrifice
ou sua mequetrefídia em momentos ou anos a fio de
fraqueza espiritual e de patética soberba.
Àqueles
e àquelas que não se enxergam, desejo mais
inspiração e muito mais prudência no
trato com mulheres e homens valorosos, que sabem ficar de
quatro por um grande amor ou por uma grande idéia,
ainda que no anonimato. Pois se iluminados brilham ao bel
prazer dos holofotes, luminosos emitem idéias e sentimentos
próprios. Então homem ou mulher coloque aqui
tantas vírgulas quantas bem quiser você que
não é mequetrefe.
Débora
Pinheiro
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