Luís
Carlos Lopes
Carta
Maior
06/11/07
- A massificação midiática da informação
e da argumentação, e mesmo da expressão
emocional e do gosto ampliaram, como nunca, a inversão.
Nela, a parede é vermelha, mas repete-se à
exaustão que é branca.
Se
a realidade, que envolve e toca, pudesse ser sentida exatamente
como ela é, a natureza humana tomaria outras dimensões.
O que se vê, tateia e escuta é aquilo que parece
ser, de acordo com as capacidades e as limitações
sensórias possuídas. Por isso, as visões
que temos dependem do que se é. Em suma, isto está
em função das características e capacidades
desenvolvidas ao longo de uma história social e pessoal
de vida, e de acordo com nossas potencialidades congênitas.
Estes sentidos dependem muito do momento histórico
vivido, das forças que se entrechocam no espaço
e no tempo, e da vontade que se tem de compreender ou de
não-compreender o que está em volta. Esta
vontade não é natural, sendo também
construída pelas mesmas forças.
Pode-se
lembrar, em um exemplo, que as imagens e técnicas
de exames das ciências médicas dizem muito
aos profissionais da saúde e, nem tanto, aos leigos.
É verdade que podem ser explicadas, traduzidas e
compreendidas por quem não é do ramo. Todavia,
podem, também, ser ignoradas ou pouco entendidas
por quem não tem o conhecimento prévio necessário.
A existência dos mesmos sentidos não quer dizer
que vejamos o mundo exatamente da mesma forma. Em outro
exemplo, existem inúmeras maneiras de ver televisão,
ler os jornais, acessar a Internet, escutar o rádio
etc. Conversa-se dentro de códigos e sinais diversos,
tal é a multiplicidade das possibilidades atuais
da comunicação humana, feita de modo direto
ou intermediada por objetos e máquinas.
Existe
uma visão média do que envolve a todos, uma
opinião comum compartilhada e validada por quem está
próximo socialmente ou midiaticamente. Esta opinião,
não raro, confronta-se com outras opiniões,
igualmente comuns, provenientes de outros espaços
de validação. Difere, igualmente, das especializadas.
Estas se relacionam com conhecimentos mais abrangentes,
que são convalidados ou não pelos que estudam
sistematicamente determinado problema. São também
chamadas de opiniões científicas, sempre lembrando
que não existe a verdadeira possibilidade de uma
ciência exata e de que as ciências não
são sinônimas de verdades ou de acertos inquestionáveis.
É
possível que os códigos e os sinais usados
na comunicação humana sejam facilmente trocados,
mesmo invertidos. Isto pode ocorrer não intencionalmente,
por equívoco, completa ignorância ou loucura.
Nestes casos, a troca traz a possibilidade de reversão,
por meio do diálogo, tal como os bons professores
e outros profissionais tentam fazer. A discussão
é o caminho para o entendimento humano nos seus dois
sentidos: o da intercompreensão e o da percepção
mais acurada do entorno.
A
massificação midiática da informação
e da argumentação, e mesmo da expressão
emocional e do gosto ampliaram, como nunca, a inversão.
Nela, a parede é vermelha, mas repete-se à
exaustão que é branca. Em um primeiro momento,
gera-se a confusão mental, na continuidade, vê-se
o vermelho como branco e vice-versa. A publicidade usa e
abusa deste tipo de inversão, de códigos e
sinais trocados, sucessivamente repetidos. Nesta situação,
a intenção é clara, provém de
um sujeito manipulatório que sabe exatamente o que
está fazendo. Um dos problemas de nossa época
é que as técnicas publicitárias invadiram
domínios insuspeitos. Não são mais
de uso restrito, destinadas à venda de mercadorias.
Como
se pode ver nas mídias, quase tudo está à
venda, por isso um cartão de crédito custa
a achar o que não pode ser comprado ou facilitado
por seu intermédio, em um claro jogo manipulatório.
É bastante comum encontrar a oferta de carne humana,
bastante exposta e de descrição detalhada,
sobretudo na Internet. O pudor do passado desapareceu. O
segredo do sucesso é a exposição de
corpos jovens, com poucas idéias (quase todos dizem
a mesma coisa) e bastante integrados à ordem social
dominante. Na busca do sucesso a qualquer preço,
vale qualquer coisa para ser famoso, alcançando o
mundo das personas midiáticas, do consumo de luxo
e escandaloso. Ganhar um bom prêmio de saída
pode ser a porta deste novo paraíso terrestre. Nenhuma
nudez será mais castigada! Ninguém mais será
punido por seus excessos. Vivê-los é imitar
os famosos, aqueles que têm a verdadeira vida destinada
aos homens e as mulheres de boa vontade.
Para
tudo isto, é fundamental a operação
de inversão dos códigos e dos sinais. Torna-se
crucial aprender a língua desta nova ordem simbólica.
Esta faz parte de uma também nova ordem material,
ancorada em uma nova urbe flamejante da fama, da riqueza
e das luzes das grandes mídias. Desfocam-se os problemas,
mirando-se em um novo Éden que está aqui e
agora. Basta ter um pouco de sorte, fazer a coisa certa
e esperar que desta vez será a sua vez, mesmo que
tenham outros milhares querendo ou sonhando com as mesmas
coisas. Poderia ser diferente? Não, considerando-se
o poder das forças em entrechoque no atual contexto.
Sim, pensando-se que a história está sempre
se movendo e o que existe hoje será, em breve, parte
de um passado que talvez se queira esquecer.
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