28/08/07 - Em entrevista ao jornal O Estado de São
Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez
um balanço de seu governo, rejeitou possibilidade
de mudança constitucional para disputar novo mandato,
defendeu a política econômica e entendimento
entre partidos da coalizão para eleições
de 2008 e 2010.
Marco
Aurélio Weissheimer - Carta Maior
Data:
27/08/2007
O
jornal O Estado de São Paulo publicou,
neste domingo (26), uma entrevista de quatro páginas
com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na
entrevista, Lula rejeita a possibilidade de uma mudança
constitucional para disputar um terceiro mandato em 2010,
fala sobre seu governo, a política econômica,
o PT e a crise do mensalão, entre outros temas.
A agenda eleitoral é um dos temas centrais da entrevista.
Pragmático, Lula defende um entendimento entre
os partidos que compõem a coalizão que o
apóia no Congresso, visando às eleições
municipais de 2008 e a sucessão presidencial, em
2010. “Tenho ponderado aos presidentes dos partidos
da base que seria importante que eles conversassem e começassem
a mapear a possibilidade de alianças políticas
nas prefeituras das capitais e das cidades mais importantes
do País”. Para ele, esse entendimento facilitaria
a construção de uma candidatura em 2010:
“Se
as direções não conversam antecipadamente,
permitem que o jogo eleitoral e o interesse eminentemente
municipal determinem a política local e o conflito
nacional. Onde é possível construir aliança
política para disputar, por exemplo, 2008? Onde
é possível ter candidaturas próprias?
Esse gesto pode facilitar a candidatura em 2010”.
Lula diz que esse candidato não precisa ser, necessariamente,
do PT: “Se a gente tiver juízo, a gente constrói
essa candidatura única. Ser do PT ou não
ser do PT é um problema que o partido vai ter de
decidir”. E faz uma defesa da adaptação
na política: “Você está lembrado
de quantas vezes eu disse que era uma metamorfose ambulante.
Mas, se o político não vai se adaptando
ao mundo em que ele vive, ele vira um principista. Na
hora do discurso, à frente de um partido, você
pode ser principista, mas na hora de governar você
precisa saber que tem um jogo que tem de ser jogado”.
O
futuro do PT
Indagado
sobre se, ao final de seu segundo mandato, o PT não
ficará com a cara do PMDB, Lula diz que “não
é possível que as pessoas queiram que o
partido de 2007 seja o mesmo de 1989”. Segundo ele,
a diversidade no interior do PT é que permite que
o partido não vá nem para a ultra-esquerda
nem para a direita. “Que você fique em uma
posição intermediária daquilo que
é a política possível de ser colocada
em prática daquilo que é possível
estar de acordo com a realidade”, resume. Além
disso, defende o papel que a Carta ao Povo Brasileiro
teve na eleição de 2002: “foi aquela
carta que me deu a vitória em 2002. Eu sempre tinha
35% dos votos, e me faltavam 15% para ganhar as eleições.
Aquela carta, a composição com José
Alencar de vice, eram os ingredientes de que nós
precisávamos para fazer com que a gente pudesse
ter os outros 15%. Isso aconteceu, nós fomos a
61%”.
Indagado
pelos jornalistas do Estadão sobre a possibilidade
de uma mudança constitucional que permitisse uma
nova tentativa de reeleição, Lula rejeitou
categoricamente a idéia: “Quando um dirigente
político começa a pensar que é imprescindível,
que ele é insubstituível, começa
a nascer um ditadorzinho”. E garantiu que nada o
fará mudar de posição: “Não
tem essa de o povo pedir. Meu mandato termina no dia 31
de dezembro de 2010. Passo a faixa para outro presidente
da República em 1° de janeiro de 2011, e vou
fazer meu coelhinho assado, que faz uns cinco anos que
eu não faço”. Sobre o julgamento do
mensalão no Supremo Tribunal Federal, Lula disse
que, quem errou deve pagar, que as denúncias devem
ser apuradas e que cabe ao Supremo decidir se acata ou
não os indiciamentos. “O PT não errou.
Eu acho que pessoas do PT podem ter errado”, afirmou,
recusando-se, porém, a citar nomes.
Lula
defendeu a política econômica de seu governo,
classificou-a como um grande acerto e negou que ela seja
uma continuidade dos anos FHC. “Se eu continuasse
com a política, o país tinha quebrado. Mudou
tudo. Mudou a nossa relação internacional”.
Questionado sobre quais as diferenças em relação
à política do governo anterior, respondeu:
“O ajuste fiscal que nós fizemos em 2003.
Você acha que não contou nada para a gente
poder garantir a economia? A nossa política de
crédito, a nossa política de transferência
de renda? A nossa política de inovação
tecnológica, a quantidade de desoneração
que nós fizemos? Não mudou nada neste país?”.
Citou o Bolsa Família e o Pró-Uni como exemplos
de programas que estão mudando a vida de milhões
de brasileiros. E elogiou a atuação do presidente
do Banco Central, Henrique Meirelles, concordando que
foi “um grande achado na administração
da economia”.
Gasoduto
e Banco do Sul
No
terreno da política internacional, destacou a abertura
para a América Latina, África e Oriente
Médio, que fizeram com que o Brasil não
ficasse mais dependente de um único país.
“Embora a nossa exportação continue
crescendo 20% para os EUA e 20% para Europa, ela cresceu
100% com a África, 70% com o Oriente Médio
e cresceu 50% com a América Latina”, exemplificou.
Lula negou a existência de uma disputa com a Venezuela
e a Argentina. “O Brasil tem US$ 4 bilhões
de investimentos na Venezuela. O Brasil tem interesse
em fazer parceria entre Petrobrás e PDVSA. Estamos
muito bem relacionados na América do Sul, temos
e tivemos esses problemas com a Bolívia, que são
problemas naturais. O Brasil, com a maior economia, tem
de ser sempre mais generoso com a Bolívia, o Paraguai,
o Uruguai, porque são países menores, que
precisam ter oportunidade de crescimento”.
Especificamente
sobre os temas do Gasoduto e do Banco do Sul, propostos
pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, Lula
mostrou mais interesse no primeiro do que no segundo.
Segundo ele, o gasoduto interessa ao Brasil e há
mais de 50 técnicos da Petrobrás discutindo
com a PDVSA para verificar a viabilidade econômica
e ambiental do projeto. “Se ficar comprovada toda
a reserva de gás na faixa do Orinoco, nós
temos um potencial extraordinário para desenvolver
a América do Sul”, afirmou. Quanto ao Banco
do Sul (que serviria como agente de financiamento de projetos
de desenvolvimento na América Latina), o presidente
brasileiro disse que, a priori, não é contra,
mas que é preciso definir antes qual seria a característica
do mesmo. “Nós já temos o CAF (Corporação
Andina de Fomento”, que funciona bem. Então
o pessoal está discutindo”.
Aberta
corrida presidencial?
O
Estadão destacou as afirmações relativas
à sucessão de 2010. Na noite de domingo,
uma matéria repercutiu o conteúdo da entrevista,
afirmando: “Entrevista de Lula abriu corrida presidencial,
dizem aliados”. O PMDB de (Michel) Temer teria reagido
com euforia. “O presidente Lula tem nos ouvido com
freqüência, portanto, não nos surpreendeu.
Ele tem nos tratado como os integrantes da coalizão
esperavam”, declarou Temer ao jornal. Já
o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) disse que
uma candidatura única dos partidos da base do governo
“é o caminho mais sensato a seguir”,
mas que esse é um processo difícil, entre
outras razões, por disputas regionais difíceis
de serem superadas. Cardozo admitiu a possibilidade de
o PT não ter candidato, dizendo que o partido precisará
ter grandeza caso apareça um nome de outro partido
“que corresponda às expectativas e tenha
mais chances de vitória”.
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