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DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

 

25/11/06 - O Brasil convive com a desnutrição, a obesidade e os distúrbios alimentares

Contraste é o que não falta no Brasil. E quando a discussão chega à balança, não é diferente. Recentemente, a mídia exagerou com o espetáculo. Tratou de forma apelativa a morte de duas jovens que sofriam de anorexia – a mesma mídia que inunda as bancas e fatura com reportagens sobre as dietas da moda. São fatos tristes e que devem servir como alerta para jovens e pais, isso ninguém discute.

O fato é que o prato dos brasileiros, por razões variadas, reflete mais males além dos distúrbios alimentares.

Brasileiros, abaixo da própria linha da miséria, ainda morrem de fome. Outros têm de conviver com a anemia. Há cada vez em maior número, aqueles que chegam aos hospitais vítimas de problemas resultantes do excesso de peso.

Os distúrbios alimentares (como a anorexia e a bulimia), classificados como doenças psiquiátricas, chamam a atenção porque, além de definhar cada vez mais jovens e já fazer estragos entre crianças, mostram a pressão do que se convencionou chamar de “ditadura da moda” na vida das pessoas.

Atinge não só a classe média, mas as meninas da periferia. O tratamento é longo, caro e o serviço público de saúde não dá conta do aumento da demanda. Situação semelhante ocorre com os outros problemas nutricionais: existe desinformação e faltam vagas no atendimento gratuito.

Na terça-feira 21, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou que metade dos trabalhadores da indústria nacional (49,7%) está acima do peso ideal e 26,3% deles têm problema de hipertensão arterial.

No dia seguinte, o instituto de pesquisas LatinPanel, ligado ao Ibope, informou que, segundo levantamento em 8,2 mil domicílios, 29% têm como expectativa para 2007 aumentar os gastos com alimentos e mercearia.

O brasileiro quer comer mais. Até aí é não apenas um direito, mas uma necessidade. A questão é o que ele quer colocar para dentro da boca. A resposta está nas prateleiras de supermercados, abarrotadas de alimentos à base de muito açúcar e de muita gordura. “Os sinais da vida moderna não estão apenas nas casas de quem tem melhor poder aquisitivo. O acesso aos alimentos hoje é para todos. E nas comunidades carentes, apesar da pobreza, o que se vê é a substituição do suco pelo refrigerante e do arroz com feijão pelo macarrão instantâneo”, relata Zilda Arns, presidente da Pastoral da Criança, que defende a adoção de programas nacionais de educação alimentar. “A segurança alimentar tem de ser um valor cultural da população.”

Os números comprovam o que a médica Zilda vê na prática. Pesquisa feita entre 1974 e 1975 mostrava um consumo per capita de arroz de 31,571 quilos, enquanto, entre 2002 e 2003, esse volume caiu para 17,110 quilos. No caso dos alimentos preparados, o movimento foi no sentido contrário: subiu de 1,706 quilo para 5,398 quilos.

A desnutrição, por sua vez, ainda causa milhares de óbitos no País. Estima-se que pelo menos metade das mortes de crianças com até 5 anos – foram 88 mil em 2005 – tenha como causa a desnutrição.

Na média, uma criança brasileira morre a cada 12 minutos porque não tem como se alimentar. A Organização Mundial da Saúde, em 1995, divulgou uma pesquisa, feita em 53 países, segundo a qual a subnutrição contribui com 56% de todas as mortes de crianças.

Apesar de os números ainda serem alarmantes no chamado país da fartura, as vítimas de desnutrição diminuíram expressivamente nas últimas décadas.

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição e sobre Demografia e Saúde, em 1974, 18,4% das crianças com até 5 anos apresentavam baixo peso para a idade. Em 1996, eram 5,7%. Na avaliação sobre a baixa estatura para a idade (desnutrição crônica), o avanço foi menor em 22 anos – caiu de 32% para 10,5%.

Quando não mata, a falta de alimento limita o desenvolvimento físico e intelectual. As vítimas têm perfis variados. São crianças, idosos, de centros urbanos e de periferias. Há tempos o problema também faz parte da vida das comunidades indígenas.

Nas áreas de atuação da Pastoral da Criança, Alagoas foi o estado com mais crianças desnutridas no ano passado, com 6,5%. Na outra ponta ficou o Paraná, com 1,8%. Na comparação entre 2004 e 2005, o Amapá teve o maior crescimento de ocorrências acompanhadas pela pastoral – 47,8%.

Entre os adultos, os problemas relacionados à segurança alimentar não são diferentes. A Pesquisa de Orçamentos Familiares, feita pelo IBGE entre 2002 e 2003, constatou a seguinte realidade na população com 20 anos ou mais: 2,8% dos homens têm déficit de peso, 41,1% sofrem de excesso de peso e 8,9% são obesos.

Entre as mulheres, o estudo mostrou 5,2% com problema de baixo peso, 40% com sobrepeso e 13,1% são vítimas da obesidade. Um dos efeitos é visto nas farmácias. O Brasil, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), tem o maior consumo per capita de remédios para emagrecer – 9,1 doses diárias por mil habitantes entre 2002 e 2004.

Outro problema, chamado de “fome oculta”, também tem preocupado os envolvidos com a saúde pública, como explica Halim Girade, oficial de projetos do Unicef, e pode estar escondido entre anêmicos e obesos, sem distinção. Segundo o especialista, a fome oculta é resultado da falta de três micronutrientes: ferro, vitamina A e iodo. Sem ferro, a criança fica anêmica, não consegue interagir socialmente e apresenta dificuldade motora.

A ausência de vitamina A compromete a imunodeficiência. Já a insuficiência do iodo resulta em deficiência mental. “É o paradoxo brasileiro. Um não engorda porque não tem. O outro não engorda porque não quer”, avalia Girade.

A estimativa da organização não-governamental Global Alliance for Improved Nutrition é de que cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo sofram com a falta de microrganismos como ferro e vitamina A na dieta alimentar.

Um estudo do Unicef, divulgado há quatro meses, mostrou que 73% dos cerca de 146 milhões de crianças com menos de 5 anos e subnutridas no mundo em desenvolvimento concentram-se em apenas dez países. A maior população está na Índia, seguida por Bangladesh, Paquistão e China.

Segundo Ana Beatriz Vasconcelos, coordenadora da Política Nacional de Alimentos e Nutrição do Ministério da Saúde, como ainda não há estatísticas sobre a incidência de distúrbios alimentares entre os brasileiros, não é possível comparar os diferentes problemas relacionados ao peso. “Sabemos que a situação é grave entre os jovens e vamos realizar estudos sobre os distúrbios alimentares. Mas qualquer ação que o ministério tome será no sentido da necessidade de uma alimentação saudável e do peso adequado”, explica a coordenadora.

Especialistas acreditam que a tendência para os casos de desnutrição seja de continuar a cair. Entre os motivos estão os programas assistenciais como o Bolsa Família. Para Rômulo Paes, secretário de Avaliação e Gestão da Informação do Ministério do Desenvolvimento Social, as políticas de assistência social têm dado sinais positivos no que diz respeito aos aspectos nutricionais. Diz Paes: “Os principais beneficiados são as crianças pequenas, em idade crítica, quando a falta de alimento é ainda mais danosa”.

Apesar de a média brasileira de desnutridos estar em queda e situar-se abaixo da média da América Latina, da África e da Ásia, na comparação com vizinhos com o Chile, Uruguai e Argentina ainda estamos na frente, segundo o oficial de projetos do Unicef. O fato é que o peso da população mundial, seja para mais ou para menos, é um problema de saúde pública.

Nos Estados Unidos, reino do consumo, onde a obesidade afeta mais de 60% da população, o problema atinge 10% das crianças e é considerado epidemia. “É preciso mudar alguns conceitos. Não basta falar na alimentação, que é a ingestão normal de alimentos, mas em nutrição, que é a qualidade do que se ingere”, diz Halim, do Unicef.

Por Paula Pacheco

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